Milicianos dispostos a matar para manter Timor parte da Indonésia
Dili, Timor Leste, 01 (AE-AP) - Eles usam bandanas com as cores nacionais vermelho e branco e dizem que estão prontos para morrer a fim de impedir que Timor Leste se torne independente da Indonésia. Mas, certo mesmo é que eles estão dispostos a matar em nome de sua causa.
Com seus machetes em punho, incendiando casas e, às vezes, utilizando armas militares, os membros de milícias aterrorizaram áreas inteiras do território por quase um ano. Até agora, dezenas de pessoas morreram. Alguns calculam que cerca de 60.000 pessoas já abandonaram suas casas.
Apoiadas por tropas do exército indonésio, o objetivo das milícias era intimidar os eleitores que estivessem dispostos a votar no referendo supervisionado pelas Nações Unidas de segunda-feira, convocado para decidir se Timor continuará sendo parte da Indonésia ou se conquistará a independência.
Só que eles falharam totalmente. Segundo a ONU, 98,6% dos 451.000 eleitores compareceram às urnas, simplesmente ignorando as ameaças das milícias.
O grande comparecimento pode ser um indicativo de que a campanha para a independência saiu vencedora do plebiscito, embora o resultado oficial será divulgado apenas no dia 7.
Antes do referendo, os líderes das milícias e políticos contrários à independência haviam prometido respeitar o resultado e conter a onda de violência. Embora eles tenham permanecido inativos durante a votação, os milicianos, entretanto, regressaram mais uma vez às ruas com uma força ameaçadora depois que as urnas foram cerradas.
Na noite se segunda-feira, eles mataram um funcionário local da ONU na aldeia de Atsabe, aproximadamente 40 quilômetros a sudoeste de Dili. Acredita-se que pelo menos outros dois tenham morrido.
Ontem, perto da aldeia de Gleno, eles impediram a saída do trabalho de 150 funcionários da ONU e atiraram contra um helicóptero da organização que recolhia urnas eleitorais.
Em outra aldeia, um relatório não confirmado afirma que os milicianos mataram oito membros de uma mesma família.
Em Dili, eles impediram que ativistas pró-independência pegassem aviões ou barcos para sair de Timor Leste.
Hoje, eles organizaram um enterro de um dos seus, que foi morto há alguns dias durante um conflito com partidários da independência. Com armas em punho, os milicianos juraram vingança enquanto o caixão descia ao túmulo.
Poucas horas depois, eles estavam em frente à sede local das Nações Unidas, atirando e perseguindo funcionários do organismo mundial. Eles mataram a facadas um homem enquanto o pessoal da ONU olhava atrás de barricadas de arame farpado.
Um líder da milícia, Eurico Guterres, advertiu mais uma vez hoje que Timor Leste se transformará em um "mar de sangue" caso a campanha para a independência vença o referendo. "Eu me uni às milícias porque não quero deixar a Indonésia. Caso isso ocorra, será o caos", disse um recruta.
Oponentes reivindicam que as milícias desfrutam do apoio tácito do exército indonésio, que teria fornecido treinamento e acesso às suas armas, incluindo fuzis M-16.
O exército da Indonésia invadiu Timor Leste, uma ex-colônia portuguesa, em 1975.
Grupos independentistas afirmam que os generais não conseguem admitir a hipótese de abandonar o território depois que centenas de soldados morreram para defender a integração.
Segundo Charles Costless, do Centro Carter, de Atlanta (EUA), que está monitorando o referendo, há evidências de que o exército indonésio forneceu armas para as milícias.
As Nações Unidas reclamaram que a Indonésia não se esforçou para impedir que as milícias atacassem durante a campanha do plebiscito.
Os grupos de milícia mais proeminentes são:
BESI MERAH PUTIH (Ferro Branco e Vermelho, em indonésio);
AITARAK (Espinho, em dialeto tetun). Com base em Dili, a gangue fechou um acordo de paz com os independentistas antes da realização do referendo, mas está envolvida no ataque contra a ONU realizado hoje;
MAHIDI (sigla de Vida ou Morte para Integração, em indonésio). Funcionários de grupos de direitos humanos afirmam que este grupo tem 1.000 membros armados com munição do exército;
HALILINTAR (Trovão, em indonésio). Os aldeãos locais dizem que seus membros receberam motocicletas para patrulhar estradas rurais e obter informações de residentes.





