Milicianos atacam missão da ONU em Dili
Jacarta, 10 (AE-AP) - As milícias pró-Indonésia atacaram nesta sexta-feira (10) o prédio da Missão das Nações Unidas em Timor Leste (Unamet) em Dili pouco depois de a maior parte dos funcionários ter deixado o local para viajar para a Austrália.
O comboio de cerca de 500 pessoas - membros da ONU, jornalistas e refugiados - foi também atacado a tiros, mesmo sob custódia do Exército indonésio, no trajeto até o aeroporto, de onde seguiu para Darwin, Austrália.
Os milicianos armados entraram na missão da ONU e ameaçaram aproximadamente 1.500 refugiados e cerca de 80 membros da organização que decidiram permanecer em Timor Leste. Enquanto as forças de segurança olhavam sem fazer nada, os grupos armados quebraram janelas, provocaram incêndios e roubaram vários veículos da ONU, com os quais passearam pelas ruas da capital timorense.
O bispo de Dili, monsenhor Carlos Ximenes Belo, chegou hoje a Lisboa e foi recebido como herói por milhares de pessoas, numa manifestação que lembrou outras da Revolução dos Cravos, de 1974.
O religioso, obrigado a deixar Timor Leste após ser atacado por milicianos, mostrou-se comovido e impressionado pela recepção, que reuniu o presidente Jorge Sampaio, o primeiro-ministro Antonio Guterres e as principais autoridades portuguesas.
O Prêmio Nobel da Paz de 1996 pediu ajuda da comunidade internacional para conter a violência em Timor Leste e denunciou que os timorenses estão enfrentando um genocídio. "A polícia e o Exército colaboram estreitamente com as milícias ou não fazem nada", disse Belo, acrescentando que o comandante das Forças Armadas indonésias, general Wiranto, a quem acusou pelas matanças, deveria ser julgado por um tribunal internacional. O presidente norte-americano, Bill Clinton, que chegará amanhã à Nova Zelândia onde participará da reunião anual da Associação de Cooperação Econômica ásia-Pacífico (Apec), na qual a questão de Timor Leste será tema obrigatório, qualificou de "inaceitável" a colaboração dos militares indonésios com as milícias.
Os Estados Unidos, que na quinta-feira romperam relações militares com a Indonésia, recusam-se a enviar suas a Timor Leste para pôr fim à violência e manifestaram-se favoráveis ao envio de uma força de paz somente com a aprovação indonésia.
O chefe das Forças Armadas indonésias disse hoje que seu país aceitará a presença de tropas de paz internacionais em Timor, mas somente no momento adequado. Wiranto declarou que seria pouco prudente a intervenção de forças estrangeiras em Timor Leste "quando se está vivendo uma forte reação emocional" depois da realização do plebiscito do dia 30 que resultou favorável à independência do território.
"O Exército da Indonésia deve primeiro acalmar o ânimo da população", disse, acrescentando que seu país permitirá apenas o envio de organizações humanitárias - entre elas a Cruz Vermelha e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) - a Timor Leste.
Ainda nesta sexta-feira, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan
disse que a lei marcial em Timor Leste imposta por Jacarta fracassou e exortou a Indonésia a aceitar "sem demora" uma força internacional para restaurar a segurança no território.
Os governos de França e Itália manifestaram disposição de integrar uma força de paz e Portugal anunciou que dois de seus navios de guerra estão preparados para participar de uma intervenção.
Annan advertiu que se Jacarta não aceitar as forças de paz, as autoridades indonésias serão responsabilizadas pelos "crimes contra a humanidade" cometidos na ex-colônia portuguesa, invadida em 1975 pela Indonésia.
Funcionários britânicos de direitos humanos disseram hoje que mais de 20 mil pessoas podem ter morrido desde o anúncio do resultado do plebiscito, há uma semana.
Membros da ONU que chegaram hoje à Austrália contaram os horrores vistos em Timor Leste. "Não há mais nada em Dili. Está deserta. Quase todos os edifícios foram incendiados e podíamos ver a fumaça e as chamas", disse o médico indiano Ruo Koka. Ele contou que várias crianças foram feridas ou sofreram fraturas ao ser lançadas sobre os arames farpados que rodeiam o prédio da ONU em Dili, em uma tentativa desesperada de seus pais de salvá-las das milícias.





