Dili, 05 (AE-AP) - Milicianos favoráveis à manutenção de Timor Leste como parte da Indonésia atacaram neste domingo (05) a residência do bispo católico Carlos Belo, Prêmio Nobel da Paz de 1996, incendiaram prédios da diocese e destruíram várias casas, informou a representante diplomática de Portugal em Jacarta, Ana Gomes.
Segundo ela, pelo menos cem pessoas teriam sido assassinadas entre sábado e domingo e dezenas resultaram feridas durante ataques desfechados pelos milicianos pró-Indonésia. Para líderes separatistas timorenses o total de mortos pode ultrapassar 200.
O porta-voz do Conselho Nacional da Resistência Timorense, Roque Rodrigues, disse que uma centena de pessoas foram mortas só na localidade de Same (sul do território) e outras 20, em Atsabe (oeste).
Ana Gomes ressaltou ainda que dezenas de feridos foram levados para Dili, capital de Timor Leste, e lotaram o hospital local. "O número de vítimas era muito grande e a direção do hospital pediu a intervenção da polícia indonésia para impedir a entrada de mais feridos."
Os milicianos recusam-se a acatar o resultado do plebiscito realizado na semana passada no território, no qual 78,5% dos 430 mil eleitores inscritos votaram pela independência. A maioria esmagadora dos timorenses rejeitou, dessa forma, a oferta indonésia de "autonomia parcial".
Gomes acusou setores do Exército indonésio de "fechar os olhos à ordem do presidente B. J. Habibie, substituto do ex-mandatário Suharto, derespeitar a vontade da maioria timorense, configurada de forma inequívoca no plebiscito de segunda-feira".
A representante diplomática portuguesa ressaltou que os militares indonésios "querem que os observadores, jornalistas e membros da missão da Organização das Nações Unidas abandonem o território para promover uma campanha de extermínio ali".
Funcionários da ONU, bem como observadores internacionais, concordam com a diplomata portuguesa num ponto: os milhares de soldados indonésios - estacionados na ex-colônia portuguesa, desde a anexação pela Indonésia em 1976 - nada fizeram para evitar a campanha de violência desatada pelos milicianos pró-Indonésia.
Essas fontes denunciam também que nos últimos dias as milícias contrárias à independência tomaram e controlam uma ponderável área de Timor Leste.
Segundo acordo assinado com Portugal e patrocinado pela ONU, o governo indonésio comprometeu-se a manter a paz na região até que ela passe a ser administrada por uma entidade internacional. Tanto Portugal quanto outros países, principalmente do Pacífico Sul, têm advertido a comunidade internacional de que não pode ficar de braços cruzados diante do banho de sangue que ocorre ali.
O governo australiano, por exemplo, está defendendo o envio de uma pequena força internacional de paz. Militares indonésios resistem à idéia, embora o governo aparentemente já tenha dado indícios de que pode ceder.
"A situação em Timor Leste piora rapidamente", advertiu Ana Gomes. "Precisamos instalar ali, com a máxima urgência, uma força internacional de paz."
Uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para debater o agravamento da situação no território estava prevista para o final da noite de hoje.

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