Milhares de americanos entrarão no ano 2000 em casa ou no trabalho Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 30 (AE) - Elizabeth Stetten planejou seu reveillon há três anos. Ela iria se encontrar com suas duas melhores amigas em Nova York, para celebrar em grande estilo a virada do século. Mas Sally, que trabalha num banco em Boston, cancelou a viagem para passar o Ano Novo de prontidão, no escritório: ela terá de defender os computadores, caso haja um ataque cibernético.
Carol, a artista de Los Angeles, também desistiu - mas por outro motivo. "Foi medo", explicou Elizabeth. "Medo das ameaças de ataques terroristas, medo de chegar no aeroporto e descobrir que o vôo foi cancelado, medo de pagar uma conta astronômica por uma festa vazia que corre o risco de ser um verdadeiro desastre, e medo da reação de milhares de medrosos", resumiu.
As três amigas acharam melhor adiar seu reencontro e comemorar o novo milênio modestamente - cada qual na sua casa ou no trabalho. Para seu consolo, não serão as únicas. Milhares, em todos os Estados Unidos, farão o mesmo. Alguns porque querem e outros porque o clima de apatia que tomou conta do país levou ao cancelamento de centenas de eventos públicos e festas privadas.
Faltando três dias para o reveillon, o prefeito de Seattle, Paul Schell, suspendeu uma festa que prometia reunir 50.000 pessoas sob a torre Space Needle (Agulha Espacial) - um símbolo da cidade. "Esse já é um Ano Novo imprevisível", explicou Schell. "Não queríamos arriscar a segurança pública."
Na quarta-feira passada, quando faltavam apenas 48 horas para o final do ano, a maior comemoração privada de Washington foi cancelada - mas não por motivos de segurança. Os organizadores da noite de gala no MCI Center investiram em publicidade e até suspenderam outro evento, para juntar os convidados de duas festas desanimadas numa só. Nem assim conseguiram encher o salão de baile e, com milhares de entradas de US$ 249 e US$ 399 ainda engavetadas, acharam melhor desistir.
Não foi o único cancelamento em Washington, nem nos Estados Unidos. Em Nova York - cujo reveillon é internacionalmente famoso, mesmo sem o charme adicional do novo século e do novo milênio - muitos hotéis só conseguiram atrair clientes reduzindo seus preços pela metade. O sofisticado Waldorf-Astoria lotou apenas porque ofereceu quartos de US$ 695 por US$ 389.
Aspen, a estação de esqui frequentada por celebridades de Hollywood e pelo jet-set internacional, nunca foi tão acessível. No último inverno deste século e em pleno boom econômico nos Estados Unidos, os desesperados donos de hotéis chegaram a oferecer quartos por US$ 99 para atrair clientes.
Se fracassarem, não serão os únicos. Estrelas do porte de David Bowie, Sting e Michael Jackson tampouco conseguiram vender entradas para seus espetáculos e foram obrigados a cancelar seus concertos do "milênio".
Os últimos acontecimentos nos EUA não contribuíram para animar o reveillón. No começo do mês, Seattle sediou a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Na ocasião
o presidente Bill Clinton e ministros de 134 países deveriam ter lançado a Rodada do Milênio - a rodada de negociações que abrirá ainda mais os mercados internacionais. Mas o encontro fracassou, por falta de consenso e por causa dos protestos de rua contra a globalização. E a cidade, que esperava lucrar com a presença de centenas de turistas ilustres, sofreu um prejuízo de US$ 20 milhões.
Mas a gota dágua que levou o prefeito Schell a cancelar a festa da cidade foi Ahmed Ressam - um argelino, de 32 anos, preso no último dia 14, quando tentava cruzar a fronteira do Canadá com explosivos. Ele tinha reserva num motel de Seattle, próximo da torre Space Needle.
Pouco depois, uma canadense e um segundo argelino foram presos
em outro posto fronteirço: Lucia Garofalo e Bouabide Chamchi são suspeitos de terem ligações com terroristas islâmicos.
O Departamento de Estado e a Casa Branca insistem em dizer que não há motivo para pânico. Mas, ao mesmo tempo, pediram extrema cautela, especialmente no próximo dia 31 e no meio de multidões. Ou seja, em qualquer festa de reveillón badalada. O governo dos Estados Unidos diz ter informações de que grupos não indentificados estariam planejando atentados contra norte-americanos em qualquer lugar do mundo.
"Se tivessem dito que esperavam atentados no Oriente Médio ou que suspeitavam de uma seita da Califórnia que acredita no fim do mundo eu ficaria mais tranquila", diz Helen Hawkins, que desistiu de fugir do inverno de Washington e passar o reveillón com a família em Miami.
"Mas esse alerta, feito de última hora, de que algo pode acontecer em algum lugar acabou me convencendo que melhor mesmo é ficar em casa, na frente da televisão", explica.
As Helens da vida contribuíram para a decisão da United Airlines de cancelar um terço de seus 2.400 vôos diários no dia 31. A maior empresa aérea norte-americana gastou US$ 85 milhões para modernizar seus sistemas de informática. Mesmo assim, não conseguiu convencer as pessoas que liquidou o "bug do milênio" - o culpado por boa parte da apatia nesse reveillón.
O bug do ano 2000 é o apelido dado a um problema mundial, que afeta os computadores mais antigos, cujos programas utilizam apenas dois dígitos para indentificar datas. Se não forem reprogramados a tempo (e os americanos investiram fortunas na modernização de sues sistemas de informática) as velhas máquinas identificarão o próximo ano como "00". Mas esse número pode ser interpretado como 1900 ou 2000.
Apesar de terem investido fortunas na modernização de seus sistemas de informática e se considerarem imunes ao "bug", bancos, hospitais, empresas e departamentos públicos em todo o país convocaram plantões extraordinários no reveillón. Por cair num fim de semana, este final de ano deveria ser de descanso, mas o "bug" obrigará milhares de pessoas a comemorar o ano novo em escritórios.
Só a FEMA (Federal Emergency Management Agency, agência federal para administrar situações de emergência nos EUA) terá 800 pessoas de plantão, em dez centros regionais, para monitorar catástrofes em todo o país. Apesar do "bug" e das ameaças terroristas, o presidente Clinton e sua mulher, Hillary, não abriram mão da festa de US$ 12 milhões (arrecadados junto ao setor privado) para comemorar a chegada do ano 2000.
A festa deve reunir entre 200.000 e 750.000 pessoas no Mall. Com a ajuda de seu amigo pessoal, o diretor de cinema Steven Spielberg, o casal Clinton espera tranformar Washington de capital da burocracia dos EUA em uma das cidades mais badaladas, na última noite do século.
O espetáculo ao ar livre terá fogos de artifício, música, poesia, um filme de 20 minutos sobre este século, e até uma narração do próprio Clinton. Ele lerá um texto do ex-presidente Abraham Lincoln. Mas deste mesmo evento participá um exército de policiais. No reveillón, Washington terá o maior esquema de segurança desde abril passado, quando chefes de estado e de governo dos 16 países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se reuniram na cidade.
Além de terroristas, os norte-americanos temem as seitas que associam a chegada do ano 2000 ao fim do mundo. Mas até aqueles que acreditam na aniquilação imediata do planeta estão tentando tirar proveito comercial de seus últimos minutos de vida.
Vários sites de "sobreviventes" estão vendendo kits de "sobrevivência" para todos os gostos - desde comida desidratada e máscaras para gás, até manuais de dicas de como sobreviver num mundo inimaginável para muitos americanos, desprovido de geladeiras, telefones e televisão. Bruce Beach, um ex-soldado dos EUA que se mudou para o Canadá, está se preparando para salvar sua família e outras 500 pessoas desde a década passada.
Nos anos 80 ele começou a comprar e enterrar 42 ônibus escolares, perto de sua casa, a 200 quilômetros de Toronto. Ele passará o reveillón nesse labirinto subterrâneo, que tem até uma cadeira de dentista e um quarto a prova de som, para pessoas que tiverem uma crise nervosa e precisarem gritar para desabafar. Mas seu bunker - como muitos salões de festa e aviões - despertou pouco interesse. Pelo menos neste século.





