Lavradores sem-terra invadiram anteontem uma fazenda entre os municípios de Cascavel e Catanduvas, na primeira ação do gênero nesta parte do Oeste paranaense nos últimos anos. Coordenadores regionais do Movimento dos Sem-Terra (MST) do Paraná, que orientaram a ação, dizem que são aproximadamente mil famílias, com total de três mil pessoas. A invasão só chegou ao conhecimento do Incra ontem de manhã, informada pela Polícia Militar, que indicou número menor de pessoas. A Folha observou que há mais de 150 barracos de lona preta já montados - em um dos quais estava sendo velado um bebê que morreu na madrugada - e muitos outros sendo erguidos.
A fazenda, de propriedade da família Festugato, de Cascavel, tem 600 alqueires, parte destinada à lavouras e o restante de mata secundária. Não houve incidentes na invasão, pois os sem-terra não encontraram nenhum funcionário. Até o final da tarde de ontem não havia sido apresentado pedido de reintegração de posse à Justiça. Um dos principais coordenadores do MST na região, Oiti Finkler, que participou da ação, disse que as famílias ‘‘definiram este local para morar e sobreviver’’, e que sem-terra que quiserem se somar a elas ‘‘serão bem aceitos, inclusive as despejadas pelo governo do Estado no Noroeste’’.
Entre os ocupantes da fazenda estão sem-terra que estavam acampados em margens de rodovias, outros que saíram da Fazenda Mitacoré, em São Miguel do Iguaçu, e até mesmo favelados de Cascavel e de Foz do Iguaçu. É o caso de Sandra e Miguel Souza, de 20 e 23 anos, e dois filhos. O terceiro filho do casal, Viviane, de 5 meses, faleceu na madrugada, vítima de pneumonia. O bebê foi velado no barraco, e até o final da tarde de ontem os pais não sabiam onde seria sepultado. As condições no acampamento montado são extremamente precárias, com barracos muito próximos e invadidos pela fumaça de toscos ‘‘fogões’’ (buracos no chão). Na madrugada, o frio havia sido intenso (3 graus), o que poderia se repetir na madrugada de hoje.
Gilberto Brietzhi, 28 anos, vindo da Fazenda Mitacoré, onde ficou a esposa, um dos coordenadores, disse que ‘‘não tem outro jeito a não ser ocupar, porque o governo não assenta ninguém por vontade própria’’. ‘‘O governo diz que assumiu a reforma agrária, então, tem que fazer’’, frisou. O governador Jaime Lerner (PFL), que havia estado na parte da manhã em Cascavel, possivelmente ainda sem ter sido informado da invasão, disse que seu governo está preocupado em ‘‘não deixar faltar aos pequenos agricultores o que é dado de graça aos invasores’’. Como exemplo de reforma agrária, ele citou as vilas rurais implantadas por seu governo. ‘‘Os que estão nas vilas são os primos-pobres dos sem-terra’’, acrescentou.

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