Washington, 19 (AE-IPS) - Existem notáveis diferenças entre a cobertura jornalística americana do conflito na Iugoslávia e a de outros conflitos que envolveram os Estados Unidos nos últimos anos, disseram analistas.
Tanto os meios impressos quanto o rádio e a televisão são desta vez menos patrióticos e estão mais atentos à visão do "inimigo", além de questionar mais agressivamente os funcionários de Washington e da Otan sobre sua estratégia, especialmente em comparação com a Guerra do Golfo (1991).
"Temos um quadro mais amplo deste conflito" do que da guerra contra o Iraque, afirmou Dan Hallin, professor de Comunicação da Universidade da Califórnia e autor de "A guerra sem censura", uma obra clássica sobre a atuação dos meios de comunicação durante o conflito do Vietnã.
Hallin e outros analistas atribuem o progresso não tanto a uma mudança de consciência na política editorial dos principais meios de comunicação americanos, mas a outros fatores, como a semelhança cultural entre os sérvios e o Ocidente e a falta de um controle oficial sobre os jornalistas.
Mas o fator mais importante é sem dúvida a profunda divisão das elites sobre como se deveria lutar esta guerra, ou mesmo se ela deveria ser travada.
"Quando muitos líderes colocam em dúvida a campanha, os jornalistas se sentem mais cômodos apresentando pontos de vista alternativos", observou Seth Ackerman, analista de Justiça e Precisão no Jornalismo (FAIR), sediado em Nova York.
As colunas dos diários e os apresentadores mais destacados de programas de televisão oferecem um espectro de opiniões muito mais amplo, desde líderes radicais que exigem uma guerra terrestre e a expulsão do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic até moderados que exigem o fim da guerra.
O tema Iugoslávia domina a televisão dos Estados Unidos desde que a Otan deu início a seus bombardeios contra esse país em 24 de março para conseguir, entre outros objetivos, a retirada das forças iugoslavas da província separatista sérvia de Kosovo, de maioria albanesa.
Kosovo abarca entre 60 e 70 por cento do tempo dos noticiários noturnos das três principais redes de televisão, assinalou Andrew Tyndall, editor do programa "Tyndall Report".
Na segunda semana de bombardeios, o assunto consumiu mais tempo na televisão que quanlqer outro, estrangeiro ou doméstico, desde a tentativa de golpe de Estado contra o presidente soviético Michail Gorbachev, em 1991.
"Isto significa mais atenção do que a dada à princesa Diana, ao julgamento de O.J. Simpson e à Monica Lewinsky!", destacou Tyndall.
A cobertura desta guerra, entretanto, se parece com as anteriores na questão da virtual ausência de contexto histórico.
"Como outros conflito que foram esquecidos até que estourou a crise, o público não tem muita idéia de quem são essas pessoas", afirmou Susan Moeller, diretora de jornalismo da Universidade de Brandeis.
A ignorância resultante oferece aos políticos a oportunidade de utilizar estereótipos para manipular a opinião pública, que neste caso lembram da Segunda Guerra Mundial e do holocausto dos nazista contra os judeus, disse Moeller.
Esse esforço foi impulsionado inconscientemente pelos meios, que até agora concentraram sua atenção na situação dos kosovares de origem albanesa expulsos de suas casas.
"Grandes filas de desesperados desabrigados, trens repletos de pessoas, anciões transportados em carroças: trata-se de imagens poderosas que lembram o holocausto, destacou Moeller.
Esta tática tem por objetivo "satanizar" o inimigo, neste caso Milosevic, que por exemplo apareceu na capa da última edição da revista Newsweek sob o título "O rosto do demônio".
Mas esta estratégia só pode ter êxito enquanto a imprensa continuar concentrando-se no sofrimento dos refugiados.
Na semana passada, quando a Otan bombardeou por erro um trem civil e um comboio de refugiados mantando pelo menos 75 deles, a televisão ofereceu uma cobertura maior da situação dentro da Iugoslávia, apesar de a situação dos refugiados na Albânia e Macedônia ter continuado ocupando mais tempo, segundo Tyndall.
"Até agora, predominam as imagens dos expulsos pelo exército da Iugoslávia sobre às das vítimas das bombas da Otan, mas isto pode mudar", acrescentou.
A cobertura do lado iugoslavo da guerra -incluindo o sofrimento da população sérvia - constitui uma grande diferença em relação às guerras anteriores, observou Hallin.
Ele acrescentou que a falta de consenso doméstico impediu que políticos poderosos atacassem os meios que enviaram os repórteres à Sérvia.
"Existe uma grande diferença em relação ao Vietnã, quando poucos jornalistas foram a Hanói e foram denunciados como traidores", lembrou Hallin.
"Ainda houve uma grande controvérsia quando o jornalista Peter Arnett informou sobre as vítimas civis das bombas dos aliados em Bagdá", acrescentou.
A Sérvia consegue mais atenção dos meios que outros recentes "inimigos" dos Estados Unidos por diferentes razões, segundo Hallin.
Em primeiro lugar, os sérvios são europeus brancos que culturalmente se parecem muito mais com os americanos do que os vietnamitas, os árabes ou os somális.
"A aparência física dos sérvios é semelhante à nossa, e não estiveram sujeitos a estereótipos negativos dos meios durante 20 anos, como o Iraque", observou Hallin, que manifestou sua surpresa pelo fato de serem comuns informes sobre como os bombardeios afetam a vida dos sérvios.
Finalmente, a ausência de uma guerra terrestre faz com que seja muito mais difícil para o Pentágono controlar a informação do que na Guerra do Golfo, acredita Ackerman.
"Como resultado, a cobertura é muito mais rica e multifacetada", acrescentou.
Ackerman concordou com Hallin que a maior imparcialidade da imprensa se deve principalmente à ausência em Washington de um apoio unânime á guerra.
Isto poderia mudar com o envio de forças terrestres, advertiu. Neste caso, prevê o analista, tanto os líderes como os meios de comunicação respaldariam incondicionalmente os soldados americanos.

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