São Paulo, 239 (AE) - Passava da meia-noite quando o servente de pedreiro Marcos Pereira de Oliveira desceu os degraus escorregadios que dão acesso ao Morro da Lua, na zona leste de São Paulo. Para chegar em casa, ainda teria de subir uma escadaria de barro estreitinha na encosta quase vertical, por entre as torres da Eletropaulo. Não foi preciso. Havia uma multidão, carros de bombeiros e de polícia, muita gente estranha. "Cadê minha mulher?", gritava Oliveira, desesperado. "Meus filhos, onde estão?"
Todo mundo sabia, menos ele. Islane, a Laninha, de 22 anos, sua mulher, havia sido soterrada na avalanche de terra que desceu do morro. Estava com os filhos, Marcos Kennedy, o Quequé, de 2 anos, e Maila, de 2 meses, que sobreviveram. Chorando, o pedreiro refugiou-se na casa da sogra, Maria Neuza Pereira de Souza. Lá, os seus lamentos juntaram-se a outros.
Neuza tinha perdido três filhos (Jailton, de 25 anos, Laninha e Maiala, de 17) uma nora e dois netos. "Alguém tem um analgésico?", perguntou uma mulher. "Ele não está aceitando, quer morrer..."
Durante muito tempo, seis corpos ficaram no chão, cobertos por um plástico, em frente da casa de Neuza, à espera da polícia técnica. No barraco de paredes de compensado e teto de telha de amianto, cortina florida e carpete de cor creme com marcas de pés enlameados, parentes e vizinhos espremiam-se tentando consolar a mãe e depois o pai, quando ele chegou do trabalho, sem saber de nada.
Baiana de Itapetinga, há dois anos, depois que se separou do marido, Neuza veio tentar a sorte em São Paulo, onde já moravam os irmãos. Trouxe os filhos. Eles moravam em barracos grudados na encosta que desabou.
Abraçados - Em outra casa destruída estava o pedreiro Joaquim do Nascimento Dias, de 26 anos, o Neto, piauiense. Célia Maria Alves, de 17, mulher dele, pernambucana, grávida de 8 meses, deixou o filho de 2 anos com uma vizinha e foi reconhecer o corpo. O faxineiro Edilson dos Santos, de 41, também esteve no Morro da Lua com a mesma ingrata tarefa: identificar o irmão, Claudionor dos Santos, de 42, e o sobrinho Eliseu, de 15.
Joaquim, Claudionor e Eliseu refaziam o piso da casinha de Miguel, de 50 anos, que já havia desabado. "Na ocasião, morreram só os cachorros", contou Edilson. Um dos filhos de Claudionor, Leandro, de 17, chegou há uma semana da Bahia para levar o pai de volta.
Pouco após a meia-noite, os 70 bombeiros encerraram as buscas depois de encontrar o corpo de Maiala abraçado ao de Gabriel, de 11 meses, filho de Catiúcia, que também morreu. No caminho do morro, já refeitas do susto, algumas pessoas riam da queda de outras, no barro que parecia quiabo.