Metrópoles abrigam 7 milhões de miseráveis
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quinta-feira, 05 de fevereiro de 2004
Agência Estado 
Rio- Dados levantados pela pesquisadora Sônia Rocha, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), num estudo realizado em 2003, com base no censo de 2000, revelam que, do total de 21,7 milhões de pessoas que vivem em pobreza extrema do País (13% dos brasileiros), 7 milhões (quase um terço) vivem nas 224 cidades com mais de 100 mil habitantes.
Uma metrópole como o Rio tem áreas tão desiguais que a proporção de pobres em relação à população varia de apenas 1,3%, na Barra da Tijuca, a mais de 15%, em trechos do subúrbio de Santa Cruz.
As disparidades revelam o desafio que será a extensão do programa Bolsa Família para os grandes centros urbanos, decidida pelo governo federal para 2004. Ao contrário das pequenas cidades, onde a identificação da população pobre é mais simples, o poder público terá de encontrar os bolsões de pobreza urbana, fugindo das médias municipais, que encobrem os melhores e os piores indicadores.
Sônia dividiu o Estado em 138 Unidades de População Homogênea (UPHs), que variavam de 73 mil a151 mil habitantes. Ela avaliou a proporção de pobreza em cada uma delas.
Só a cidade do Rio tinha 56 UPHs, que mostraram porcentuais tão diferentes em um município com média geral de 7% dos habitantes vivendo em situação de pobreza extrema, com renda que não permite suprir as necessidades alimentares básicas.
''Os resultados obtidos para as UPHs permitem distinguir áreas críticas de incidência de pobreza extrema dentro de municípios populosos, antes mascaradas pelos resultados médios municipais conhecidos'', resume, no trabalho ''Uma nova geografia da pobreza extrema: o caso do Rio de Janeiro''.
A pesquisa foi feita com base nos 5.507 municípios existentes no País em 2000. Em 2003, o número era de 5.561 municípios brasileiros.
A professora Lena Lavinas, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que, nas grandes cidades, ''o custo de vida extremamente elevado, muitas vezes, leva as pessoas a reduzirem a alimentação para suprir outras necessidades'' e que a política social não é, propriamente, de combate à fome, mas de segurança alimentar: garantir alimentação de qualidade, com os nutrientes necessários e preços acessíveis.
A pesquisadora lembra a experiência do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, quando era prefeito de Belo Horizonte. Ananias implementou uma nova cesta básica e, entre outras iniciativas, criou os restaurantes populares.
Na área rural, lembra Lena, a miséria é decorrente da falta de atividade da população e da falta de acesso a alimentos. A professora defende, porém, que, em vez de ''uma política para os grotões e outra para as áreas metropolitanas, seja, finalmente, implementado o que estava no programa de governo, antes da eleição, que é a segurança alimentar''.


