Metalúrgicos fazem festa na Ford após acordo
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 07 (AE) - A suspensão das 2,8 mil demissões na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo (SP) transformou hoje o pátio da empresa em palco de uma festa religiosa e política. Depois da comemoração, e da aprovação de um acordo que dá uma trégua e muita esperança aos demitidos, a empresa finalmente voltou a produzir, depois de 48 dias paralisada por conta de férias coletivas, licenças, paralisações promovidas pelos empregados e ocupações da fábrica. Em janeiro, 3,5 mil veículos deixaram de ser montados.
A suspensão durará até o dia 18. Um pacote de demissões voluntárias ficará aberto até o dia 12, válido para todo o efetivo de 6 mil empregados, com pagamento de até dez salários da função aos que aderirem, conforme o tempo de casa. No dia 22, começa tudo de novo: negociação para saber o que fazer com os excedentes e para reduzir os custos da empresa.
Todos os ex-demitidos vão receber os salários de janeiro e também os de fevereiro, o que os tira da situação de penúria em que permaneceram durante todo o movimento de resistência. Eles dependeram da doação de cestas-básica e do pouco dinheiro arrecadado em sindicatos e portas de fábrica.
Negociação - O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, prevê que a nova negociação vai se dar sobre no máximo 1,2 mil excedentes - e não mais 2,8 mil. É que mais de 700 já deixaram a companhia, pois não tinham interesse em lutar por seus empregos como os demais.
O sindicalista crê que outros cerca 900 vão optar pelo voluntariado, já que as indenizações estão mais convidativas - de início, a montadora oferecia apenas 2,5 salários.
Convencer a Ford a reintegrar definitivamente esses 1,2 mil será mais fácil, especialmente se o projeto para escoamento do estoque de veículos, com redução do IPI e do ICMS, sair do papel rapidamente. Além disso, há o projeto de renovação da frota com mais de 15 anos de uso, que dará bônus para os proprietários de carros velhos adquirirem um zero quilômetro.
O sindicalista não revelou as propostas que levará, mas admitiu que estuda todo tipo de solução, de redução jornada e de salários até terceirizações. Para ele, o importante é manter o emprego dos que foram demitidos.
Herói - O movimento chamou a atenção do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo ineditismo. Nunca uma empresa recuou na decisão de demitir em massa, depois de expedir as cartas comunicando o desligamento. "Em 30 anos de sindicalismo, nunca vi isso", disse Lula.
"Acho que a partir de agora muitos trabalhadores não vão mais se resignar quando forem cortados." O movimento, diferente de tudo o que já foi feito - em vez de reagir com violência, os demitidos apresentavam-se todos os dias e pediam para trabalhar - consagrou Luiz Marinho como a liderança sindical de maior prestígio do País hoje.
Carregado nos ombros dos empregados e aclamado como herói, Marinho, que sempre foi acusado de não ter o perfil de um líder de massa, provou ter superado essa fase, só que com estilo diferente. Seus discursos foram sempre carregados de informações
muitas vezes frias e objetivas, sobre as negociações que conduziu.
Com essa conduta, ele remeteu para o passado a anacrônica imagem do sindicalista carismático, mero animador de assembléias.
Reza - A festa dos ex-demitidos teve de tudo. Reza, com famílias ajoelhadas no asfalto agradecendo a Deus pelo desfecho parcial, mas favorável. Nos discursos de muitos dirigentes, o tom de religiosidade preponderou, assim como o nacionalismo.


