MESTRES EXPLORADOS - Com atrasos nos pagamentos, professoras vivem humilhação
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sábado, 27 de agosto de 2011
Carolina Avansini <br>Reportagem Local 
Em parte dos centros de educação infantil (CEI) filantrópicos de Londrina, a maior dificuldade do educadores diz respeito aos atrasos constantes de salário e excesso de crianças nas turmas. Conforme estimativa do Sindicato dos Professores das Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná (Sinpro), pelo menos 10% das funcionárias dessas instituições enfrentam o problema de maneira recorrente.
Paula (nome fictício) pediu demissão da CEI onde trabalhou por mais de um ano por não aguentar as humilhações sofridas em decorrência da falta de pontualidade dos salários.''Atraso as contas de luz, água, fico sem dinheiro para o supermercado. É difícil viver com as pessoas te cobrando na porta'', desabafa.
A professora explica que, como a rotatividade de profissionais é muito grande, são frequentes as vezes em que as profissionais ficam responsáveis por duas turmas ao mesmo tempo. ''Desse jeito é impossível fazer um bom trabalho. A gente acaba recorrendo à TV, jogos e o parque'', lamenta ela, que trabalhou também em pequenas escolas particulares onde foi obrigada a limpar a própria sala de aula e fazer rodízio com as colegas para lavar o banheiro da sala dos professores. ''Passava até cera no chão'', recorda.
Professora em outra CEI filantrópica, Luciana (nome fictício) relata as mesmas dificuldades da colega e reclama também da falta de estrutura para cuidar das crianças. ''Como não temos crianças de berçário, não há local adequado para trocar fraldas ou preparar mamadeiras das crianças menores. Os pais trazem o leite de casa, que muitas vezes já chega estragado. As regras da Vigilância Sanitária são totalmente desrespeitadas.'' Outro temor da professora diz respeito aos riscos de cuidar sozinha de uma quantidade de alunos acima do que estabelece a legislação. ''É uma responsabilidade muito grande, porque as crianças são pequenas'', acredita.
O desvio de função é observado entre outras categorias de trabalhadores da educação. Zilda (nome fictício) é auxiliar de serviços gerais em uma CEI filantrópica, mas acaba desenvolvendo trabalho de professora por causa do número reduzido de profissionais na instituição. ''Ajudo com os trabalhos de artes e fico com as crianças em alguns momentos do dia. Essa não é minha obrigação'', enfatiza.
Do lado das entidades mantenedoras, a falta de recursos e a dificuldade para cumprir as exigências da secretaria municipal de Educação para liberar os repasses mensais são usados como justificativa para os constantes atrasos no pagamento dos salários e falta de infraestrutura. Presidente da Associação Metodista de Assistência Social (Amas), que mantém três CEIs em Londrina, José Carlos Fioratte argumenta que o repasse da prefeitura mal chega para cobrir os salários dos professores. ''Tenho que dar conta de um custo de R$ 15 mil mensais além do que recebo da secretaria. Fazemos eventos para arrecadar recursos, mas nem sempre conseguimos o total. É uma luta'', reclama.
Em busca de soluções para o problema, ele estuda implantar boletos de contribuições mensais a serem recolhidos dos fiéis da Igreja Metodista. Acredita também que a construção de um grande centro educacional para atender pelo menos 160 crianças - que já está em andamento na Zona Norte - dará mais fôlego às finanças. ''Receberemos bem mais alunos em uma estrutura única'', explicou, lembrando que os repasses do município baseiam-se no número de crianças atendidas.''
Simone Magrinelli, gerente de gestão escolar da secretaria municipal de Educação de Londrina, explica que os repasses do município são pagos em dia para as instituições que apresentam todas as certidões negativas exigidas. ''Muitos atrasos ocorrem porque as mantenedoras não apresentam a documentação'', diz, lembrando que o dinheiro só pode ser utilizado para pagar salários ou despesas com água, luz. telefone e internet.
Ela reconhece que os valores repassados - R$ 121 por criança de 2 a 5 anos e R$ 182 para bebês até 2 anos - são insuficientes para cobrir todas as despesas dos CEIs, mas lembra que o repasse é apenas uma contrapartida. ''Por ser uma instituição filantrópica, a mantenedora tem que assumir o restante da responsabilidade.''
Com relação à legislação, Silvana Aparecida Bigatão Gionco, gerente de funcionamento escolar da secretaria, esclarece que o órgão visita os CEIs filantrópicos e particulares, com a Vigilância Sanitária - no memento de autorizar a abertura da escola e a cada três anos, quando ocorre a renovação do funcionamento. ''Se há denúncias, também fiscalizamos. Quando encontramos alguma irregularidade, damos um prazo para a instituição se adequar.''


