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. | Foto: Divulgação/IAP

No último final de semana, a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Turismo do Paraná promoveu a soltura de mais de 350 mil alevinos nos rios Piquiri, Ivaí e Paraná.

A ação já estava prevista para acontecer, mas no caso do rio Piquiri serviu como forma de compensação à mortandade de peixes ocorrida entre os dias 10 e 12 de fevereiro, no trecho entre os municípios de Ubiratã (Centro-Oeste) e Nova Aurora (Oeste). No início do mês passado, pescadores e ribeirinhos notaram uma grande quantidade de animais boiando nas águas dos rios e o IAP (Instituto Ambiental do Paraná) estimou em 50 toneladas o volume de peixes mortos. Por precaução, o instituto proibiu a pesca de qualquer modalidade em toda a Bacia Hidrográfica do Rio Piquiri. A atividade será liberada neste sábado (30).

Quase dois meses depois do desastre ambiental, o IAP ainda não concluiu o que causou a morte dos peixes e trabalha com algumas suposições. A mais provável é o uso excessivo de ceva, alimento dado ao peixe composto de grãos triturados. Mas o instituto não descarta a possibilidade de a mortandade ter sido provocada pelo baixo nível da água do rio, que ocasionou a formação de poças em alguns trechos, deixando os animais represados no período de migração, e outros eventos relacionados à atividade ilegal de pesca na parte superior do rio. “São várias premissas consideradas para avaliar a mortandade. Fazemos uma análise do local da morte dos peixes, um levantamento das indústrias poluidoras da bacia, coletamos informações com os ribeirinhos e fomos montando o quebra-cabeça”, disse o gerente regional do IAP em Toledo, Taciano Cesar Freire Maranhão.

Faltavam 16 dias para o fim da piracema e o instituto sabe que próximo ao fim do período de proibição da pesca, pescadores vão fazendo cevas com milho e soja triturada, amarram os alimentos em sacos de ráfia e colocam no fundo do rio, deixando-os invisíveis. “Quando abre a pesca, os pescadores fazem a captura dos peixes naquele local”, explicou o gerente regional.

Mas uma outra hipótese avaliada pelo IAP é que pescadores, durante a madrugada, podem ter colocado redes para a captura dos peixes, o que é ilegal, e depois de aprisioná-los, o barco pode ter tombado e os peixes já mortos podem ter caído no rio. “Notamos que as espécies encontradas eram de peixes selecionados, pintado e piapara, de alto valor comercial”, disse Maranhão. “Mas só descobrimos os peixes mortos dois dias depois da mortandade. É muito difícil, depois de dois dias do evento, termos uma resposta clara sobre as causas.”

Qualidade da água

Desde fevereiro, o instituto tem feito análises periódicas da qualidade da água para averiguar possível contaminação, mas até o momento essa hipótese está descartada. “Esse trabalho é continuado. Vamos seguir com o monitoramento durante três meses e as coletas são feitas a cada 15 dias”, afirmou o gerente regional.

A soltura de peixes realizada nos dias 23 e 24 de março, explicou Maranhão, foi apenas uma das medidas que tentam amenizar o desastre ambiental. O evento já estava programado e, além do rio Piquiri, a soltura dos alevinos foi feita também nos rios Ivaí e Paraná. “A soltura foi monitorada, foi coletada amostra para análise de sanidade dos exemplares soltos, temos licenciamento ambiental, controle de qualidade e fizemos coleta de amostras do DNA para, posteriormente, termos uma noção da população de peixes.” Ao todo, foram soltos 350 mil alevinos, sendo mais de 200 mil no rio Piquiri. A Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Turismo também promoveu o plantio de 60 mudas de árvores ao redor das bacias que receberam os peixes.

No último sábado (30), outros 150 mil alevinos foram soltos no município de Assis Chateaubriand (Oeste), em uma ação promovida pela prefeitura, Rotary e associações de pesca, sob a supervisão da Polícia Ambiental. Nas duas ações, as espécies soltas foram dourado, piapara, pacu e curimbatá, todas nativas.

Sem efeito

Professor do Departamento de Biodiversidade da UFPR (Universidade Federal do Paraná) em Palotina, Almir Cunico considera a soltura dos alevinos “um dinheiro jogado fora”. “É uma bobagem. Isso aí é coisa para tirar foto. É uma atitude que normalmente se faz para dar uma resposta à sociedade, mas a eficiência é praticamente nula”, avaliou ele, que atua no Laboratório de Ecologia, Pesca e Ictiologia (estudo dos peixes) da universidade.

A ineficiência da medida, explicou Cunico, se deve a três fatores. O primeiro é que os milhares de alevinos são produzidos em cativeiro a partir de uma única matriz. “Mesmo se forem espécies nativas, é como se tivesse jogado um monte de irmãozinhos no rio.” Chamado de homogeneização genética, o procedimento dificulta a reprodução entre eles, ao invés de facilitar o aumento populacional.

Mas antes, porém, o pesquisador aponta uma outra dificuldade a ser vencida pelos alevinos, que é o desenvolvimento até a fase adulta. “A maioria deles é predada assim que entra no rio. Os ambientes de alevinos não são os mesmos que dos adultos. Larvas e peixes pequenos estão nos afluentes.”

O terceiro fator de risco do peixamento – termo vulgar para designar a soltura de peixes em rios – seria a inserção de espécies exóticas, que não pertencem àquela bacia hidrográfica. “Esse é um ponto que normalmente acontece, mas até onde eu sei, isso não foi feito neste peixamento. Se fosse, seria ainda mais grave por introduzir uma nova espécie naquele habitat”, ponderou Cunico.

Em fevereiro, quando houve a mortandade de peixes, as principais espécies encontradas boiando no rio foram piapara, piau e mandi. Eles foram identificados nas imediações da confluência do rio Cantu com o rio Piquiri.

“Quando você trabalha para a recuperação de ambiente aquático, principalmente de rio, tem que trabalhar em uma escala de bacia hidrográfica, que é difícil porque os impactos são difusos. Não existe remédio imediato para isso. Primeiro é preciso identificar a causa (da morte dos peixes), depois identificar as fontes”, disse o pesquisador. Ele destacou que a morte é o fim de um processo que geralmente começou há muito tempo e que a única forma de evitar é com um programa efetivo de gestão ambiental. “A mortandade acontece porque não se leva a sério as informações no princípio, como forma de precaução.” As causas da morte dos peixes, segundo o IAP, estão sendo apuradas. Uma especulação aponta para a utilização de ceva contaminada com agrotóxico, mas ainda não há confirmação.

Regulamentação

No último dia 30 de março passou a vigorar a portaria nº 52/2019, estabelecida pelo IAP (Instituto Ambiental do Paraná), normatizando a pesca no rio Piquiri. Até o desastre ambiental, não havia uma legislação específica que regesse a atividade naquele rio especificamente. Com a mortandade, foram adotados parâmetros mínimos para regulamentar a pesca profissional e amadora, que inclui a proibição do uso de redes, tarrafas ou espinhéis.

O documento também limita a cota de peixes para os pescadores amadores. Durante o período de permanência no rio, eles só podem levar para casa dez quilos de peixe. Como exemplo, um pescador que permaneça por cinco dias no rio, só poderá pescar dois quilos por dia e utilizando apenas vara e molinete. “Temos muitos pescadores profissionais em Guaíra e em Formosa do Oeste (Oeste) e sempre foi pesca irregular, de madrugada. Para eles não há cota, mas a portaria vai evitar a pesca predatória”, afirmou o gerente regional do IAP em Toledo, Taciano Cesar Freire Maranhão.

Um outro item da portaria proíbe a pesca na foz do rio Piquiri, que deságua no rio Paraná, próximo à Ilha Grande. A partir de agora, a pesca só será permitida até 500 metros antes da foz. “Isso já é previsto na lei federal, mas incluímos na portaria esse ponto específico para a foz do rio Piquiri e vai evitar a pesca ilegal onde há uma grande concentração de cardumes”, ressaltou o gerente regional.

A fiscalização ficará a cargo da Polícia Ambiental e, segundo Maranhão, o efetivo está preparado para essa tarefa e há equipes determinadas para cada região. “A Polícia Ambiental já fiscalizava, mas só tinha o poder de apreensão, não de autuação”, explicou. Segundo ele, o valor da multa para quem for flagrado infringindo as normas varia de R$ 700 a R$ 100 mil.

Além da portaria, Maranhão disse que uma outra medida será colocada em prática que são reuniões com os municípios lindeiros da Bacia Hidrográfica do Piquiri para desenvolver ações para a pesca esportiva com o objetivo de ordenar a prática e promover o turismo. Deverá ser discutida também a questão da legalidade dos portos e trapiches. São cinco os municípios lindeiros: Assis Chateaubriand, Mariluz, Nova Aurora, Palotina e Terra Roxa.

Promotoria

No último dia 20 de março, o Gaema (Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo), do Ministério Público de Campo Mourão (Centro-Oeste), realizou uma reunião com prefeitos da região, representantes de universidades e pescadores para discutir formas de conciliar a proibição da pesca à manutenção da atividade econômica de quem vive do rio. A promotora Rosana Araújo de Sá Ribeiro disse que estabeleceu um prazo para que o IAP apresente um plano de ações, voltado para a causa da mortandade e regulamentação da pesca. O prazo vence no próximo dia 4 de abril. “Por ora não foi aplicada nenhuma medida punitiva para ninguém. Temos que identificar a causa primeiro. É melhor encontrar a causa e tentar regulamentar a atividade”, afirmou.

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