Mesmo privatizada, ferrovia Bauru-Corumbá permanece abandonada
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sexta-feira, 01 de outubro de 1999
Por Antônio José do Carmo 
Araçatuba, SP 02 (AE) - Trilhos gastos nas curvas, descarrilamentos em área urbana com derrame de material inflamável, dormentes quebrados e imóveis abandonados à beira da estrada. A ferrovia que liga Bauru a Corumbá, com mais de 2 mil quilômetros de extensão, também conhecida por estrada NOB - Noroeste do Brasil, não mudou com a privatização, há quatro anos
quando a Rede Ferroviária Federal passou para a Novoeste americana o direito de exploração comercial do trecho.
Prefeitos de municípios da Alta Noroeste, empresários e passageiros reclamam promessas de investimentos na melhoria da qualidade da estrada, feitas com o programa de privatização. O prefeito de Mirandópolis, Jorge Faria Maluly (PFL), diz que a única alteração percebida até agora foi a demissão de funcionários e o aumento no número de vagões por composição, que afirma ter passado de 25 para 100. Maluly diz que, com a privatização, esperava-se investimento na estrutura da estrada, construída no início do século.
O problema mais sério sempre foi a segurança nos trilhos. A Rede Ferroviária Federal já havia paralisado o transporte de passageiros anos antes da privatização porque, tecnicamente, estava comprovado o risco de tombamento dos vagões. O motivo: linhas soltas e tortas sobre dormentes podres e bases sem pedras. O drama persiste.
Há dois meses, o descarrilamento de um trem carregado de óleo diesel por pouco não provocou uma tragédia em Andradina. Depois desse episódio, a direção da Novoeste em Bauru, que foi procurada pela reportagem, mas não quis pronunciar-se, acelerou a troca de dormentes em toda a região.
A direção da companhia não compareceu - nem mandou representantes - ao Fórum Intermodal de Transportes, realizado recentemente em Araçatuba. O atraso do transporte ferroviário e sua necessidade de ser integrado ao desenvolvimento da Hidrovia Tietê-Paraná por meio de ramais portuários foi a crítica única dos empresários e políticos que participaram do evento.
A defesa da Novoeste, na verdade, foi feita pelo próprio governo. José Alex Botelho de Oliva, coordenador de Políticas de Transportes do Ministério dos Transportes, disse que o retorno de investimentos numa ferrovia só se obtém a longo prazo. Mas ele admitiu que, ao elaborar o edital de licitação para privatização da ferrovia, nem mesmo o governo tinha idéia do que estava para ser recuperado na estrada e qual a verdadeira radiografia da estrutura disponível. O coordenador disse ainda que não foi prevista, entre as exigências contratuais, a reativação do transporte de passageiros, um dos pontos mais reclamados principalmente pelos municípios menores.
O deputado federal Jorge Maluly Neto (PFL-SP) disse que pretende investigar melhor a concessão da estrada, pois, segundo ele, são constantes as denúncias de abandono e falta de conservação.
O presidente da Cooperhidro - Cooperativa dos Produtores do Pólo Hidroviário, Industrial e Turístico de Araçatuba, Carlos Antônio Farias de Souza, diz que a integração da ferrovia por ramais aos portos intermodais do Rio Tietê poderiam baratear o custo de transporte de combustíveis para Mato Grosso do Sul.
Em Andradina, havia um ramal ferroviário para transporte de carne do maior frigorífico da região. Hoje, nem os trilhos resistiram ao abandono e a estrada foi invadida por loteamentos clandestinos.


