Brasília, 23 (AE) - No início da noite de hoje, a Mesa Diretora da Câmara negou a abertura de sindicância para investigar as ações do deputado federal Hildebrando Pascoal (PFL-AC), acusado de ser chefe de um grupo de extermínio no Estado. Alegando que os supostos crimes foram cometidos quando Pascoal não era parlamentar, a mesa argumentou que não poderia cassar o deputado por falta de decoro.
"Tive de curvar-me diante da maioria, já que a minha posição era contrária", lamentou o corregedor-geral da Câmara, Severino Cavalcanti (PPB-PE). "Afinal, quem tem idéia fixa é doido."
O grande medo dos deputados era que a decisão da Câmara acabasse abrindo um precedente "perigoso". "É bom lembrar que boa parte dos atuais deputados tem processos na Justiça de uma época anterior à vida parlamentar", disse um integrante da Mesa Diretora, preferindo o anonimato. Segundo esse deputado, isso deixaria em situação delicada muitos colegas da Casa. Agora, a Câmara espera um pedido da Justiça para autorizar a quebra da imunidade de Pascoal. "Esperamos um pedido da Justiça para conceder a licença imediatamente", disse Cavalcanti.
Hoje, o STF transformou a queixa-crime, encaminhada pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Acre contra Pascoal, em inquérito. Isso permitirá a apuração das acusações contra o parlamentar acreano. Num relatório entregue pelo ministro da Justiça, Renan Calheiros, ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), Pascoal aparece como mandante de vários crimes. O próprio ministro chegou a pedir a cassação do deputado.
Mas diferente do caso do deputado Talvane Albuquerque (PTN-AL), acusado de ser o mandante do assassinato da deputada Ceci Cunha (PSDB-AL) , a Câmara não poderá apurar a veracidade de uma conversa telefônica gravada pela Polícia Federal (PF) em que Pascoal confessa a intenção de matar o então presidente do TJ do Acre, desembargador Gersino José da Silva Filho. "Nunca pensei que, no Brasil, existissem crimes com tamanha atrocidade", comentou Cavalcanti, ao fazer referência aos assassinatos descritos no relatório enviado pelo Ministério da Justiça.
Hoje à tarde, Pascoal fez um pronunciamento no plenário da Câmara, defendendo-se das acusações de que seria o chefe de um suposto esquadrão da morte. "A campanha de perseguição movida contra mim tem origem nas denúncias que fiz, impetrando uma ação popular contra a fraude grosseira praticada por membros do Tribunal de Justiça do Acre", disse Pascoal. Segundo o deputado, tudo não passa de uma vingança de Silva Filho. Isso porque Pascoal impediu que os desembargadores ganhassem um aumento de 40%, por meio de uma ação popular no STF.
"Depois disso, a minha vida virou um inferno", afirmou o deputado federal do PFL do Acre. "Eu desconheço essas acusações", completou. Mesmo assim, o deputado acreano não desmentiu a existência de uma conversa telefônica em que ele revela a intenção de matar o desembargador. "Isso nunca passou pela minha cabeça", disse Pascoal. "Mas eu tenho sofrido tanto e que tem hora que a gente acaba falando besteira", admitiu.
"Mesmo assim, não me lembro de ter falado isso e, se falei, foi em momento de raiva", insistiu o deputado. "Eu não sou de ferro, mas não quero que ele morra." Ele também denunciou que Silva Filho ganhou, nos últimos meses, oito vezes mais o valor do salário que tem, por meio de férias vencidas desde 1993. Pascoal não acredita que será cassado. "Não existe fundamento legal para eu ser cassado."
Ele também acha que a Executiva do PFL não irá expulsá-lo do partido. Ele desmentiu qualquer participação na morte dos assassinos do irmão, o então vereador Itamar Pascoal.
"Fizemos várias cassadas e ofereci R$ 50 mil como recompensa"
reconhece Pascoal. "Mas isso está previsto em lei", ressaltou. "Eu confio na Justiça brasileira e, por isso, jamais faria Justiça com as próprias mãos." O deputado disse desconhecer qualquer envolvimento de policiais nesses crimes. "Até hoje, não provaram nada contra mim."

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