Merkel é "choque elétrico" do CDU Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 11 (AE) - O grande partido da União Democrata Cristã (CDU), que fez a Alemanha do pós-guerra com o chanceler Konrad Adenauer, está em estado de abandono e desamparo desde que o ex-chanceler Helmut Kohl, reverenciado durante tanto tempo, manchou seu nome num escândalo de "caixas pretas". Foi portanto para aplicar um "choque elétrico" que a CDU escolheu para seu chefe (com 95,5% dos votos) Angela Merkel, que irá ocupar a poltrona do presidente do partido, essa poltrona que durante tanto tempo foi monopolizada por Kohl.
Sim, um "choque elétrico", porque os dirigentes da CDU compreenderam que não poderiam sair do inferno se se contentassem com um político "cor de muralha", um político notável, de cor cinza, profissional e intercambiável. Preferiram uma pessoa que em todos os planos contrastasse com o "deputado-robô" da CDU.
Primeiro traço original: é uma mulher e ainda jovem. Segunda característica: vem do Leste, portanto, em contraste com um partido profundamente enraizado na parte renana e católica da Alemanha. Ela nasceu na Alemanha Oriental, sob o regime comunista, com o qual entretanto jamais se comprometeu, é filha de um pastor e fala melhor o russo do que o inglês. Aliás, foi em Berlim que o chanceler Kohl foi buscá-la depois da reunificação em 1991 nomeando-a vice-presidente da CDU.
Outra originalidade: talvez por causa de seus longos anos sob um regime frio, mudo e cruel da Alemanha Oriental, Angela é uma mulher combativa. Despreza cortesias hipócritas entre os dois grandes partidos do país, a CDU e o SPD (Partido Social Democrata). Para ela, a questão é derrotar o SPD, de Gerhard Schrder, atualmente no poder.
Ela é uma guerreira: "Estamos de volta!" E ainda: "Nosso coração não bate à esquerda. Ele bate pela Alemanha e pela Europa". Angela atacou frontalmente os socialistas, mas também os Verdes de Berlim, "essa geração de 68 que só espera sua aposentadoria porque vendeu sua alma ao poder". Discurso tonitruante, que contrasta com as prudências e a chatice ordinária da CDU. Discurso de reconquista do poder que, tendo em conta a fadiga de seus inimigos socialistas, poderia voltar à CDU em 2002. Em tal hipótese, sem dúvida alguma, Angela Merkel seria a futura chanceler.
Que fará esta mulher? Honrará ela seu nome angélico e suave de Angela, ou, ao contrário, como dizem alguns, se tornará "uma Thatcher alemã"?
Muitos insistem sobre sua condição feminina, num país onde as mulheres foram durante muito tempo relegadas ao lar. Gostaria de destacar que Angela ilustra uma mudança bem marcante: a ascensão de pessoas da Alemanha Oriental às altas instâncias políticas, como se a população do lado ocidental, desgastada por cinquenta anos de poder e de luxo, sentisse necessidade de se "revitalizar" graças à "outra" Alemanha.
Os alemães orientais estão em todos os partidos. Podemos reconhecê-los por suas atitudes: espontâneos, chocantes, muito moralizadores, sem convencionalismos, frequentemente muito religiosos, eles não conhecem a "língua dos políticos", não se incomodam muito com a própria imagem.
Os políticos vindos do Leste preferem ser "barbudos". Um dos assessores do chanceler socialista Schrder, Wolfgang Thierse (56 anos), presidente do Bundestag, se orgulha de sua barba encaracolada.
Certa vez, o chefe de seu partido (e atual chefe do governo), Gerhard Schrder, declarou: "Se Thierse quiser fazer carreira comigo, deverá raspar a barba". Mas Thierse não cortou a barba e, apesar disso, fez carreira juntamente com Schrder.
Os trajes destes homens do Leste são singulares: estão com um atraso de "duas ou três modas" em seu modo de vestir em relação aos seus colegas do Ocidente.
Angela Merkel também não presta muito culto à elegância, à beleza, tão prezadas em todo o Ocidente. Apenas concordou em ir à cabeleireira nestes últimos dias, para dar aos seus cabelos um tom castanho mais vivo e para fazer um penteado mais "quadrado". E isso lhe valeu mais um apelido, que absolutamente não é degradante: "A Joana dArc da CDU".
Mas ela não parece preocupar-se muito com o batom nos lábios nem com o ruge no rosto. Sem dúvida, ela acredita que seu frescor, sua naturalidade, nesta agremiação de velhos políticos, já brilha por si mesma, sem a ajuda dos unguentos, das maquiagens e dos artifícios. Sua eleição triunfal lhe deu razão.





