Mercosul passa pelo seu pior momento, segundo analistas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de setembro de 1999
por Bill Cormier 
Buenos Aires, 09 (AE-AP) - O maior bloco comercial da América do Sul, o Mercosul, está passando por um momento bastante difícil. A situação não parecia tão desfavorável em junho, quando os presidentes dos quatro países do Mercosul se reuniram no Clube Náutico do Paraguai e prometeram enfrentar juntos a tormenta financeira global.
Ao terminar sua cúpula no dia 15 de junho às margens do rio Paraguai, os presidentes do Mercosul anunciaram planos ambiciosos de "harmonizar as políticas econômicas internas e fortalecer o bloco regional". O Mercosul conseguiu suportar os efeitos das crises na ásia e Rússia, além da crise provocada pela desvalorização do real pelo Brasil.
Porém, da noite para o dia, com o real em baixa, os mercados vizinhos começaram a ter a invasão de exportações baratas, de têxteis a calçados. Isso provocou as dissidências mais graves na breve história do bloco, nascido em 1991.
Em julho, a Argentina defendeu sua indústria mediante a aplicação de restrições a vários produtos brasileiros: têxteis, aço, eletrodomésticos e alguns alimentos. Como represália, o Brasil suspendeu as negociações comerciais, mas aceitou reiniciá-las depois de uma visita do presidente argentino Carlos Menem ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Contudo, "ninguém até agora encontrou uma solução permanente para o conflito", conforme as palavras do embaixador argentino no Brasil, Jorge Hugo Herrera Vegas.
O caso dos calçados é exemplar. Em julho, os fabricantes argentinos fizeram protesto nas ruas de Buenos Aires levando sapatos brasileiros nas mãos e gritando slogans contra a política econômica do presidente Carlos Menem. Héctor Pietranera, porta-voz do setor de calçados argentino, disse que os industriais querem competir, mas que com a desvalorização do real não conseguem. E mais: "sem medidas protecionistas, desapareceremos".
A disputa acontece em um péssimo momento para os peronistas de Menem, desfavorecidos pelas pesquisas eleitorais. O país vai às urnas escolher o novo presidente em 24 de outubro e as pesquisas indicam a vitória do candidato da Aliança, Fernando de la Rúa. Com um desemprego beirando os 10%, o Partido Justicialista (PJ, peronista), de Menem, não pode fazer concessões ao Brasil, dizem os analistas.
O Brasil diz que as medidas protecionistas seriam ilegais e ameaçariam a integração do Mercosul. O comércio entre os dois países somou US$ 15 bi, com um balanço de US$ 1,5 bi favorável aos argentinos. Para o chanceler argentino Guido di Tella, os dois países vão superar o conflito. Para ele, os argentinos não têm a menor intenção de abandonar o bloco.
Contudo, o conflito acontece em um momento impróprio. No final de junho, na Cimeira, realizada no Rio de Janeiro, os países do Mercosul decidiram iniciar negociações de livre comércio com a União Européia. O tema mais candente dos dois blocos reside no subsídio que os europeus dão aos seus agricultores. Enfraquecidos, os países do Mercosul terão muito mais dificuldades na hora de negociar com os europeus.


