São Paulo, 23 (AE) - "Digo para vocês, mas nunca em público: do jeito que vai, o Mercosul não serve para nada".
A frase foi atribuída hoje pelo jornal Clarín, na sua página de opiniões, ao ministro de Economia da Argentina, Roque Fernández. De acordo com o jornal, o ministro teria questionado, de forma contundente, o funcionamento do Mercosul diante de representantes da União Industrial Argentina (UIA, a CNI argentina).
"Foi um erro estratégico concentrar todo o potencial exportador no Brasil. Devíamos ter comercializado com o mundo", disse Fernández a uma platéia reduzida de empresários e de colaboradores do governo, que se surpreenderam com as declarações do ministro.
As fontes do Clarín, que não são identificadas, comentaram que o "ministro foi sincero, direto e não se recusou a falar sobre tema algum". Segundo o jornal, Fernández falou sobre a perda de competitividade argentina e não se assustou quando discutiu uma hipotética, porém eventual, desvalorização do peso.
"Não estamos contra a desvalorização, mas o governo tem de tomar medidas imediatas para sustentar a conversibilidade. Senão, a paridade do peso com o dólar será inviável", disse ao jornal o secretário da UIA, Ignacio De Mendiguren
Consultados sobre a veracidade ou não das declarações de Fernández, porta-vozes do Ministério da Economia limitaram-se a afirmar que "nunca fazem comentários sobre supostas declarações em reuniões ou sobre versões jornalísticas".
Durante as conversações com os dirigentes da UIA, Fernández também teria tentado atenuar o clima pós-crise do real informando sobre a aplicação de medidas "antidumping" contra as importações de aço brasileiro. O ministro confirmou ainda que outras decisões similares seriam aplicadas contra concorrências desleais denunciadas, desta vez, pela Federação da Indústria Têxtil (Fadit).
Terminado o encontro com os dirigentes da UIA esta semana, Fernández teria proibido qualquer declaração de seus colaboradores. "Ninguém diga nada, os proíbo que falem", teria ordenado o ministro. Em "off", os integrantes da equipe econômica reconhecem que é necessário o silêncio porque "não sabem o que dizer diante da magnitude do protesto do ministro".
Neste final de semana, está previsto, em Brasília, um encontro de extrema importância entre os chanceleres dos dois países e ministros do setor industrial. Devem participar os ministros Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer, pelo Brasil, e Guido di Tella e Alieto Guadagni, pela Argentina.

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