Buenos Aires, 25 (AE) - O presidente eleito da Argentina, Fernando de La Rúa, quer que o Mercosul tenha mecanismos que permitam resolver os efeitos negativos provocados por seus desequilíbrios econômicos. Como primeira medida nessa direção, ele pretende convencer o Brasil a aceitar a criação de tribunais para a solução de conflitos comerciais.
"Sustento que a criação de organismos de arbitragem para resolver conflitos entre partes do setor privado é uma boa medida; o Brasil, todavia, não o vê como possível e teme que signifique uma burocracia adicional", disse De La Rúa, em rápida entrevista a jornalistas brasileiros. "Mas se logramos mecanismos não burocráticos que simplifiquem as coisas, podemos evitar que surjam travas aduaneiras e trabalhar construtivamente", acrescentou.
O presidente eleito não pretende manter a política protecionista que marcou os último anos do governo de Carlos Menem. "Existe um caminho melhor que este, onde os próprios setores empresariais conversam entre si e limitam os negócios sem causar recíprocos prejuízos", argumento, ponderando então que é necessário avançar sobre a forma de resolver os desequilíbrios quando eles se apresentam. E a melhor forma, disse, são os tribunais de soluções de controvérsia.
"É preciso recriar as bases de confiança e instituir mecanismos de consulta prévia, defendeu. Quando o Brasil desvalorizou sua moeda em janeiro foi muito criticado pelos três parceiros do bloco comercial, justamente porque tomou a medida - que alterou a competitividade entre produtos brasileiros e dos demais países - sem nenhuma negociação prévia.
0 vice-presidente eleito da Argentina, Carlos "Chaco" Alvarez, defendeu a idéia de que os países do Mercosul tenham, no futuro, um mesmo tipo de câmbio e admitiu a possibilidade de que os argentinos peçam ao Brasil alguma compensação frente à crescente e contínua desvalorização do real. "Quando falamos de um Mercosul previsível, em benefício de todos os países que o compõem, é para que hajam mecanismos que permitam equilibrar situações econômicas ante desvalorizações que descompensem a situação", afirmou, em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade do governo eleito pedir compensações ao Brasil pelos efeitos negativos que a política cambial do Brasil tem causado à Argentina.
Alvarez observou que o fato dos dois países manterem câmbios diferentes (fixo, na Argentina, e flutuante, no Brasil), torna a harmonização de políticas macroeconômicas mais difícil. "Uma saída seria compartilharmos o mesmo tipo de câmbio e nisso teremos que chegar, afirmou, ponderando que antes de chegar a um mesmo modelo cambial, os países precisam estabilizar suas economias e passar por um longo processo de convergência de suas políticas macroeconômicas, que incluem questões fiscais e trabalhistas.
"Hoje, na Argentina, temos que defender a convertibilidade, temos um problema de custos, precisamos baixá-los para ganhar competividade e não há nenhuma hipótese de sairmos da convertibilidade; somente a médio prazo, quando convergirmos nas políticas macroeconômicas, podemos delinear a hipótese de um tipo de câmbio comum entre os países do Mercosul", observou.
Para o futuro, como meta de muito longo prazo, De La Rúa defendeu a adoção de uma moeda única. Por enquanto, disse, os países podem reforçar o bloco comercial também ampliando suas vendas para terceiros mercados. "Estamos no mesmo barco e devemos defender nossa produção, abrindo novas frentes para expandir nossa presença no mundo", afirmou, defendendo a necessidade de uma negociação firme dos países do Mercosul nas negociações da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Alvarez também disse que Argentina e Brasil precisam acertar a redução de todos os subsídios indiretos, para que possam realmente montar um mercado livre, com regras claras. "A Argentina está disposta a isso", avisou. Para o vice-presidente eleito, "é preciso recuperar a confiança que se perdeu porque o governo argentino agrediu politicamente o Brasil, em muitos aspectos, mostrando que não havia compromisso com a construção de um espaço comum". "Hoje, acrescentou, a Argentina tem um governo que considera o Mercosul a primeira aposta na política externa argentina".

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