Rio , 28 (AE) -- A liberalização do comércio agrícola entre o Mercosul e a União Européia pode conduzir os países do bloco regional do Cone Sul a uma frustração tão grande quanto a um ganho real extremamente reduzido de mercado. A afirmação foi feita por uma alta fonte diplomática da Comissão Européia, que participa da reunião de Cúpula América Latina-Caribe-UE, no Rio de Janeiro.
"Uma vez que a liberalização agrícola entre os dois blocos econômicos seja consolidado, não será surpresa para os países do Mercosul se os maiores beneficiários desse processo acabem sendo os próprios membros da União Européia", afirmou o diplomata, em entrevista à Agência Estado. De acordo com ele, o resultado dessas negociações acabará provando os grandes desequilíbrios existentes hoje entre as duas regiões.
De posse de uma série de dados estatísticos sobre o intercâmbio comercial agrícola entre os dois blocos econômicos, o diplomata acusou os países do Mercosul de estarem passando para a comunidade internacional uma imagem "equivocada e distorcida" sobre o mercado agrícola europeu, que absorve atualmente 11% de todas as importações mundiais de produtos agrícolas.
O diplomata não poupou argumentos para rebater as acusações dos latino-americanos e informou que a Comissão Européia vai começar a contestar, de forma enfática, toda e qualquer afirmação de que as eventuais restrições ou barreiras não tarifárias existentes estejam prejudicando as exportações agrícolas do Mercosul para o mercado europeu. Para essa fonte, os dados do comércio agrícola entre as duas regiões provam que o "dito protecionismo" europeu não existe.
"Do volume de vendas externas do Mercosul para a União Européia, 55% referem-se a produtos agrícolas, e, quase em sua totalidade, são soja, carne bovina resfriada e industrializada, frutas e conservas", explicou. E mais, acrescentou o diplomata, "do volume total de importações de farelo de soja feitas pela União Européia, 85% provêem do Mercosul; 62% da carne bovina consumida na Europa são dos países do bloco do Cone Sul, sendo que, desse volume, 87% são de carne industrializada; e 89% do mercado de suco é dominado por produtos importados do Mercosul".
"Se houver uma liberalização do comércio agrícola, pergunto qual será o ganho de mercado que Mercosul poderá obter se já tem números tão expressivos e parcelas tão dominantes no mercado europeu", disse a fonte da Comissão Européia. Para ele, o grande problema dos membros do Mercosul não são as barreiras não tarifárias que o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai dizem existir, mas sim o fato de o Mercosul não ter conseguido, até agora, reestruturar a sua pauta de exportações, que se restringem apenas a tres ou quatro produtos básicos.
Os argumentos do diplomata não param aí. De acordo com ele, as exportações de produtos agrícolas do Mercosul para o mercado europeu, segundo ele o maior do mundo, são oito vezes superiores ao volume das exportações agrícolas européias os quatro países do bloco do Cone Sul. O diplomata foi mais longe ainda e alertou: "É bom lembrar que, paralelamente às negociações comerciais bilaterais com o Mercosul, ou mesmo no âmbito da OMC, a União Européia terá de abrir espaço para produtos agrícolas do Leste Europeu." Vale lembrar ainda, que, nos próximos anos, cerca de 12 países (da Polônia à república Tcheca) têm chances de ingressar ao grupo dos 15 países que fazem parte da União Européia. "Seria ótimo se cada chinês pudesse tomar um copo de suco de laranja por dia e pudesse comer um bife também diariamente", ironizou.

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