São Paulo, 27 (AE) - Havia uma suspeita de que a última semana do recesso parlamentar não seria sopa e pelo menos a segunda-feira não foi. O mercado assustou-se com os acontecimentos que foram sendo empilhados ao longo do dia, que poderia ter sido animado se o Ocidente não amanhecesse com a China avisando que Taiwan pertence à "terra-mãe", alarmando os investidores no sudeste asiático, e o mercado norte-americano não demonstrasse tanta instabilidade ante a trajetória de sua própria economia. As perspectivas favoráveis consideradas pelos analistas para o leilão de privatização da Cesp Paranapanema não produziu eco, apesar do destaque absoluto das três companhias geradas pela cisão da Cesp no ranking das ações mais valorizadas da Bovespa.
Mas valorizações vigorosas não entusiasmam quando o giro de moeda é excessivamente modesto. E ontem foi. Apenas US$ 152,9 milhões mudaram de dono, garantindo ao pregão desta abertura de semana lugar entre os mais fracos do ano. A queda acentuada das bolsas brasileiras - 2,85% em São Paulo e 2,10% no Rio de Janeiro - foi embalada por uma deterioração nada desprezível de expectativas. No final do dia, o firme posicionamento do governo FHC contra salvaguardas impostas pelo governo argentino às exportações brasileiras atiçava as preocupações.
O Brasil continuou a reagir com energia à onda de protecionismo argentina. O Itamaraty veio a público e alertou que o Mercosul sofre risco de retrocesso. Desta vez, a briga parece pra valer, num momento politicamente delicado pela proximidade da eleição presidencial no país vizinho.
O Brasil quer uma reunião de emergência do Mercosul, para semana que vem, e suspendeu as negociações bilaterais sobre o sistema automotivo. A credibilidade do bloco econômico está na berlinda e é certo que a Argentina desaprovou a mudança do regime cambial brasileiro. Mas, pondera credenciada fonte do governo brasileiro, na verdade, quando o Brasil alterou sua política cambial e mexeu em alíquotas de Imposto de Importação o governo não estava fazendo nada mais do que zerar a conta com a Argentina, que teve anos seguidos de prosperidade no comércio exterior - tornando-se um país superavitário - graças à política de sobrevalorização do real sustentada pelo Brasil por mais de quatro anos de Plano Real. A mesma fonte comenta que apesar da delicadeza do momento, dada a proximidade das eleições presidenciais argentinas em outubro, o "imbroglio" em que se transformaram as relaçõe s dos dois países mostra o quanto é difícil estabelecer - e respeitar - regras comuns quando as economias que tentam formar um bloco não são desenvolvidas e têm a administrar, isoladamente, grande diversidade de problemas internos.
Independentemente de onde vai parar a discussão entre os dois países, é inegável o fato de que a Argentina tem um peso de absoluta relevância para os investidores dedicados aos mercados emergentes em geral e à América Latina em particular. Como o Brasil estruturou nos últimos anos uma relação comercial importante com a Argentina - nosso principal comprador de manufaturados - qualquer ameaça de ruptura provocará ruído nos mercados, que já mostram seu descontentamento e desconfiança nos prêmios de risco embutidos nos preços dos ativos da região negociados em Nova York.
Que a Argentina tem particular relevância para o andamento dos mercados não há dúvida, mas a interferência dos Estados Unidos sobre os ativos latinos e, sobretudo, brasileiros é intensa. Até por esta constatação, o mercado aberto está dando uma demonstração de bom senso e reavaliando seu otimismo quanto ao resultado da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre amanhã à tarde em Brasília. O encontro tem o objetivo de definir a próxima meta do juro primário da economia brasileira, representado pela taxa Over/Selic, e que passa a valer na quinta-feira. Também deverá ser discutida a tendência do juro ou o "viés", que desde março se mantém inalterado em "baixa". Ontem à tarde, as projeções para a nova Selic convergiam para 20,50% ao ano da meta atual de 21%. Havia uma clara divisão de posições, porém, quanto ao futuro do "viés" que poderia passar para "neutro.
A possibilidade de o Copom mudar o "viés de baixa" para "viés de alta" está praticamente descartada, mas a probabilidade de adotar o "viés neutro" é quase a mesma de manter a "baixa". As duas opções têm vantagens e desvantagens e é sobre elas que o Copom deverá tomar sua decisão. Para uma corrente de operadores, manter o "viés de baixa" seria uma forma de o Banco Central reafirmar a intenção política do governo de prosseguir na cruzada de redução dos juros no País e - quando der - reaquecer a economia com consistência. Para outra corrente, para manter o "viés de baixa" o Banco Central precisaria ter alguma certeza de que nos próximos leilões de títulos prefixados, o mercado aceitará juros inferiores aos praticados atualmente e que superam com folga a meta Over/Selic mesmo para o prazo mais curto que é 28 dias. Caso contrário, o risco é a desmoralização da política do "viés".

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