O diretor do Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels, Oscar Berro, vai defender no Seminário Nacional sobre Identificação de Medicamentos Falsificados, que começa hoje, no Ministério da Saúde, em Brasília, a criação de uma delegacia especializada em crimes contra a saúde em cada Estado, como a que está para ser inaugurada no Rio.
Segundo Berro, uma estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que 30% dos remédios existentes no mercado mundial são falsificados. Em termos de Brasil, onde a indústria movimentou, em 1997, cerca de US$ 9,5 bilhões, isso representaria US$ 2,8 bilhões. ‘‘É preciso que esses criminosos sejam punidos com rigor’’, afirmou. Ele lembra que, em 97, chegou a ser cogitada pela comissão encarregada de propor mudanças no Código Penal a redução da pena dos falsificadores. Na semana passada o governo encaminhou um projeto de lei triplicando a pena para esse tipo de crime - entre 10 e 30 anos de cadeia.
Berro acredita que o atual derrame de medicamentos falsos tenha por trás quadrilhas profissionais. Ele apresentará no seminário cerca de 50 remédios apreendidos nas blitze promovidas a partir de maio pela Vigilância Sanitária do Rio, que mostram como os falsificadores estão se aprimorando. Ao lado de cópias grosseiras, como a da pomada odontológica Omcilon A, que vem em tubos no original e em potes na cópia, há imitações perfeitas, como a do analgésico Novalgina e a do antiinflamatório Cataflam, ambos medicamentos de muita venda. ‘‘Isso mostra que são indústrias bem montadas, capazes de fabricar frascos, rótulos e pílulas’’, apontou ele.
Além das indústrias clandestinas, Berro suspeita que distribuidores com excesso de rótulos no estoque estejam se aliando a compradores de sobras das indústrias para montar pequenas fábricas de fundo de quintal. O laboratório está analisando cerca de 60 tipos diferentes de medicamentos apreendidos nas 37 farmácias, várias de grandes redes, distribuidores e indústrias interditados pela Vigilância Sanitária nessas blitze.
Até agora os técnicos constataram duas linhas de falsificação: a que desvia amostras grátis e a que dilui o medicamento verdadeiro. O próprio Cataflam falsificado, por exemplo, foi enviado para o fabricante, a Novartis, que identificou a substância como sendo realmente o seu remédio. ‘‘A suspeita é a de que pessoas que têm acesso a amostras grátis estão municiando essas indústrias clandestinas’’, disse Berro.
Um exemplo flagrante da outra modalidade, a da diluição, foi encontrada na Cefoxitina Sódica. Enquanto o remédio verdadeiro tinha 98,5% da substância, o falso possuía apenas 10%. Mais: a composição do remédio falso incluía amido, uma prova da ‘‘malhação’’ do produto. Os frascos, no entanto, eram idênticos e é muito difícil, para o consumidor comum, perceber na hora da compra que está sendo enganado.

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