Mercado reage a Equador Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 26 (AE) - Analistas e operadores do mercado deixaram clara hoje (26) a apreensão do mercado diante da decisão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de apoiar o governo do Equador no adiamento do pagamento de US$ 94 milhões de juros - o primeiro calote num bônus Brady - e buscar uma renegociação de sua dívida externa com credores oficiais e privados.
Eles diferiram na avaliação do possível impacto do primeiro episódio de inadimplência no mercado de Bradies sobre as demais economias emergentes, especialmente na América Latina. Mas apontaram o efeito de precedente como um dos problemas potenciais da solução que o setor oficial está disposto a tentar no Equador.
"O mercado perdeu totalmente a confiança no FMI", disse Simon Treacher, do Morgan Grenfell Asset Management. "Como eles deixaram isso a deterioração da situação financeira no Equador) acontecer, está além da minha compreensão", acrescentou ele.
Para Treacher, "o Equador é um caso especial" e não está claro qual será o impacto da suspensão de pagamento no resto do mercado, até porque isso depende de como serão tratados, na renegociação da dívida, os papéis que o país apresentou aos credores como colateral dos Bradies que não tem como honrar.
Mas ele previu que o episódio "mudará a maneira do mercado operar" e tratar dívida securitizada e não securitizada. Treacher acredita, por exemplo, que os eurobônus, que devem ser incluídos - também pela primeira vez - na renegociação da dívida do Equador, perderão o status privilegiado de papel absolutamente garantido que hoje têm e passarão a ser considerados como o mesmo que um bônus Brady securitizado - "não serão mais um papel totalmente seguro".
"Caso a caso, as pessoas terão que incluir (em seus cálculos) o risco de default", disse ele. "O Equador provavelmente será o primeiro, a Ucrânia virá logo depois." Mas Treacher aposta que, no final, quem poderá jogar a toalha é o próprio FMI. "Resgatar países que continuam a fazer as coisas erradas não faz sentido", afirmou ele. "Mais cedo ou mais tarde, o FMI e outros dirão (aos equatorianos): já lhes demos tempo suficiente e não vamos jogar dinheiro bom para salvar dinheiro ruim."
Paul Dixon, o principal estrategista do banco de investimentos Lehman Brothers para mercados emergentes, acha que o mercado reconhece que o Equador "é um lugar único" e saberá diferenciar entre os diferentes países da região, mas compartilha a preocupação de Treacher. "A preocupação é que, se essa reestruturação da dívida do Equador for relativamente indolor e rápida e o país renegociar toda a sua dívida, é possível que outros países sigam o exemplo."
O primeiro da lista é a Venezuela - "não porque eles não possam pagar, pois têm a receita do petróleo, mas porque têm falado de tempos em tempos em reestruturar seus Bradies e a situação política do país agora cria pressão nessa direção".
Para Dixon, o calote do Equador "terá claramente um impacto negativo no sentimento do mercado e ocorre no pior momento de um ciclo de crédito, que já está atingindo toda a América Latina". Esse sentimento negativo poderá ser exacerbado pela percepção de que a solução do problema de balanço de pagamentos e de insolvência do Equador "está sendo comandando por Washington (FMI e Tesouro) e não por Wall Street", afirmou ele.
O economista Ernest "Chip"Brown, do banco de investimentos Morgan Stanley Deand Witter, é menos negativo. "O efeito inicial de um anúncio oficial de que o Equador não efetuou o pagamento de juros esperado será forte e provavelmente será difícil fazer negócios e levantar dinheiro nos primeiros dias, ou semanas", disse ele.
"Mas a situação se normalizará em questão de um mês, porque o Equador claramente não é o primeiro dominó a cair e empurar outros - é um país único, com problemas muito diferentes dos do Brasil e da Argentina, que não fez muito em termos de reformas econômicas, e os participantes do mercado sabem disso."
Segundo Brown, é necessário também fazer uma distinção entre o dano que o episódio equatoriano causará para os preços dos papéis da América Latina e de outros mercados emergentes e seu impacto sobre o aspecto institucional do mercado de Bradies.
"Não creio que haverá dano maior à instituição do mercado de Bradies, mas não tenho dúvida de que o impacto sobre o preço será considerável", disse ele. "Nos dias seguintes ao que o Equador está prestes a fazer, seja isso o que for, os demais países emissores de Bradies reiterarão o compromisso de honrar suas obrigações", previu ele.





