Mercado para transgênicos na UE está morto, alerta diretora de ONG
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2000
Por Renato Stancato 
São Paulo, 15 (AE) - O mercado para alimentos transgênicos na União Européia está morto, disse hoje a diretora executiva da ONG britânica Consumers Association, Sheila McKechnie. "As empresas que comercializavam esses produtos pediram que o mercado definisse se eles seriam ou não aceitos; pois está definido: nós não o queremos", afirmou a representante da mais poderosa ONG de consumidores do Reino Unido. Com orçamento anual de US$ 60 milhões, suas manifestações geralmente mexem com o mercado.
Sheila participou do seminário Alimentos Transgênicos: A Realidade Brasileira e o Consumidor Europeu, organizado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em São Paulo. A forma como os alimentos geneticamente modificados foram colocados na União Européia, disse, minaram a confiança do consumidor.
Rótulos - Em dois meses a UE passa obrigatoriamente a rotular toda a soja e seus derivados que não tenham certificado de origem e teor de transgênicos inferior a 1%. O mercado britânico já dotou a medida."Depois da pressão que os consumidores fizeram, um a um os mercados e indústrias alimentícias foram declarando que só usariam produtos livres de transgênicos", disse.
O consumo de soja pela indústria alimentícia representa apenas 20% da demanda total da UE. "É por isso que a soja transgênica dos EUA ainda encontra mercado na Europa", afirmou a especialista. A próxima cruzada dos consumidores é justamente para proibir o uso forrageiro da soja transgênica. "No Reino Unido, um supermercado já se comprometeu a só comercializar carne de animais que não foram alimentados com transgênicos. Isso funciona como um dominó, e logo não haverá mais mercado para transgênicos como forragem", disse.
Por ironia, até a Novartis aderiu ao não-uso de transgênicos na Grã-Bretanha. "Eles são fabricantes de comida para bebê e foram forçados a tomar esta atitude na esteira de outras empresas." Sheila McKechnie afirmou que o mercado para a soja pode simplesmente diminuir na Europa caso não haja oferta suficiente de produto não transgênico. "As indústrias já se comprometeram a não utilizar produto modificado, e as ONGs vão fiscalizar. Se alguma for flagrada mentindo vai se queimar."
Ela voltou a lembrar, no entanto, que o mercado para a soja na Europa é bastante grande. "Mesmo o consumo de soja para alimento é bastante grande no Reino Unido, porque há um número significativo de vegetarianos no país", disse.
Bom negócio - De acordo com a ativista, o Brasil fará bom negócio se não produzir alimentos transgênicos. "Os americanos já estão preocupados porque a indústria de lá está segregando soja e pagando prêmio para a convencional, mas vão gastar 3 anos para voltar para a soja convencional", disse. "O Brasil teria esse mesmo período como fornecedor diferenciado para a Europa."As indústrias européias já estão preocupadas com os boatos sobre focos de transgênicos no Brasil. "É importante que o País não perca a credibilidade, pois depois terá dificuldades para recuperá-la", comentou.
Monsanto - A diretora executiva da Consumers Association criticou duramente a posição da Monsanto durante o processo de discussão sobre os transgênicos na Europa. Sheila acusou a empresa de ser arrogante e arregimentar representantes agências governamentais e de associações de consumidores. "A diretora de uma associação da Escócia acabou mudando de lado e virando consultora da empresa", disse. "Chegou um momento em que ficava difícil saber se se estava falando com um representante da Monsanto egresso do governo ou vice-versa." O processo todo gerou um imenso desgaste da imagem da empresa na Europa. "É, sem dúvida alguma, a empresa que sofreu a maior campanha e a mais antipática, por isso mesmo está quebrando", afirmou.
Responde - O diretor de assuntos corporativos da Monsanto do Brasil, Rodrigo Lopes Almeida, rebateu com ironia a afirmação. "Se estamos quebrando, não foi comunicado, nem recebi bilhete azul", disse. Almeida afirmou que a Monsanto está de fato em processo de fusão com a Pharmacia Upjohn. "Mas isso é público", declarou.
O diretor da Monsanto afirmou que a empresa não vai se manifestar sobre o andamento de sua apelação na Justiça para a liberação do plantio comercial de transgênicos. "Mas se for liberada em breve teremos condições de colocar essas sementes no mercado já na próxima safra", declarou.
Carrefous - O diretor de produtos agropecuários do Carrefour, Arnaldo Eijsink, disse que em breve estaráconcluída a negociação entre os fornecedores da rede de mercados na Europa e produtores de soja e derivados no Brasil. A negociação é para garantir soja, farelo e óleo livre de transgênicos.
Segundo Eijsink, já foram definidas as regiões de fornecedores que entrarão no pacto. O executivo não quis adiantar se será pago um prêmio sobre o valor de mercado para essas indústrias e produtores. "Isso em breve será anunciado publicamente, assim que tudo estiver definido." Eijsink informou que os produtos com marca Carrefour ou com selo de garantia de origem Carrefour estão livres de transgênicos. "É um compromisso que está firmado com o consumidor", disse. Produtos com marcas da indústria comercializados nas prateleiras do mercado, no entanto, não tem igual controle. "Isso não nos compete", disse Eijsink.


