Mercado não esperava corte tão expressivo
São Paulo, 28 (AE) - Durante o dia da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), hoje, a aposta da maioria das instituições financeiras era de uma redução nas taxas de juro de 21% para 20,5%, embora alguns analistas falassem em números menores. O piso previsto pelo mercado era de 20%, mas a redução para 19,5% foi considerada surpreendente.
Além disso, a grande preocupação do mercado era saber se o Banco Central (BC) manteria a tendência de redução das taxas. A maior parte dos operadores acreditava que a tendência de baixa continuaria, mesmo que o BC não a utilizasse até a próxima reunião do Copom. Nesse sentido, o fim da tendência surpreendeu.
Para o coordenador da pesquisa IPC/Fipe, Heron do Carmo, era mais importante a manutenção da tendência de baixa na condução da política de juros do que a redução de meio ou um ponto porcentual da taxa Selic (taxa básica de juros). Segundo ele, a decisão do Copom pela tendência neutra pode reduzir as possibilidades de recuperação da economia brasileira no segundo semestre.
Uma queda de um ponto porcentual dos juros básicos e a manutenção da tendência de baixa, de acordo com Heron, seria uma decisão razoável. "O BC tem de levar em consideração todos os parâmetros da economia. Se a meta da inflação for 8%, uma taxa básica de 21% é muito alta", disse o economista, sustentando que o BC não deveria tomar suas decisões apenas pelo cenário internacional. "Se entrarmos nessa discussão de Greenspan e Argentina, a taxa de juros não cairá nunca", disse.
O presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, acreditava que os membros do Copom manteriam os juros no mesmo nível. Para ele, se houvesse redução, ela seria "muito pequena, pelas próprias condições do mercado", disse o executivo. "O cenário é de cautela."
Segundo o presidente, o Bradesco está trabalhando com a expectativa de que os juros, ao final do ano estejam entre 15% e 16% ao ano. A expectativa de inflação é de 7% a 8%. "O câmbio não deve mudar muito", afirmou Cypriano.
Os operadores diziam que, além da expectativa de uma pequena redução da taxa de juros, estavam colaborando para o bom humor do mercado ontem outros fatores: a venda da Paranapanema para a norte-americana Duke, com ágio de 90,21%; a queda do dólar e o dia tranquilo no mercado externo.
Para o próprio Copom, a expectativa média do mercado era de redução da taxa Selic para 20,5%, com manutenção da tendência de baixa. Havia palpites de taxas menores, mas nenhuma abaixo de 20%.
Da mesma forma, havia quem falasse em taxas maiores. Uma queda para 20,5% representaria uma redução de 0,5 ponto porcentual em relação à meta Selic determinada pelo Copom em sua última reunião (21%), mas uma queda de apenas 0,26 ponto porcentual em relação ao juro que efetivamente o BC está adotando no mercado à vista.
Com relação à tendência, a maior parte dos analistas esperava que continuasse sendo de baixa, mesmo considerando a possibilidade de que o BC não faça nenhuma redução até a próxima reunião do Copom. "Seria uma tendência de baixa virtual, mas não assustaria o mercado", disse um analista.
Outros profissionais, entretanto, disseram que não se surpreenderiam se o Copom alterasse a tendência para neutra. A hipótese de uma tendência de alta era praticamente descartada pelo mercado. "Seria terrorismo", disse um operador. Se o Copom tivesse optado pela tendência de baixa, o mercado manteria apenas suas preocupações atuais - tanto em relação ao cenário externo, quanto ao interno. Alterada a tendência - ainda que para neutra - o mercado já fica mais nervoso.





