São Paulo, 27 (AE) - A intervenção do Banco Central (BC) no mercado na sexta-feira comprando dólares provocou uma mudança radical nas expectativas quanto ao comportamento do câmbio no curtíssimo prazo. Somente hoje, a moeda norte-americana registrou alta de 1,10%, acumulando 1,81% em dois dias úteis. A alta não deve parar por aí, na opinião de vários operadores, com o dólar podendo superar R$ 1,76. Eles entendem que o BC acabou estabelecendo um piso informal para o dólar, apesar das negativas da autoridade monetária.
O diretor de Política Monetária do BC, Luiz Fernando Figueiredo, garantiu que o governo não trabalha nem com piso nem com teto para o dólar. O objetivo é "não deixar o mercado ser volátil", ou seja, oscilar muito para cima ou para baixo.
Até sexta-feira, às 11 horas, havia um consenso de que as entradas tendem a ser grandes no curto prazo, logo a taxa tenderia a cair mais e em algum momento o BC poderia intervir, mas não se sabia quando. Com isso, os bancos assumiam posições de venda, ou seja, manter reais em carteira e se desfazer dos dólares; as empresas que estavam com o hedge (instrumentos de seguro cambial) vencendo simplesmente não renovavam suas "apólices" e provavelmente tinha muita gente vendendo dólar sem ter a moeda, certo de que seria fácil comprar quando fosse entregá-lo.
Depois das 11 horas, o mercado começou a trabalhar com um cenário diferente. Agora, acredita que foi estabelecido um piso, justamente quando o dólar ameaçou ficar abaixo de R$ 1,70. Não há consenso entre analistas e operadores de que esse número realmente seja um piso informal do BC. O certo é que existe um limite para a queda, afirmam.
Hoje, muitos bancos procuraram zerar posições. Em outras palavras isso significa ficar em cima do muro, nem comprado, nem vendido em dólar. Ou ainda reduzir o volume de posições de venda a descoberto (sem lastro), porque, neste caso, o investidor é obrigado ir a mercado comprar os dólares. O resultado foi a alta da moeda.
Além disso, com a puxada do dólar o exportador, que deveria fechar suas operações de contratos de câmbio, simplesmente fugiu do mercado. Naturalmente esperando novas valorizações.
De acordo com o Figueiredo, o BC continuará a ser discricionário nas suas atitudes, sem uma regra declarada. Num regime de câmbio flutuante é natural que ocorram oscilações da moeda, mas o governo deve tentar manter uma certo equilíbrio até que o mercado amadureça. No ano passado, lembrou, o BC também fez uma intervenção quando o dólar chegou perto dos R$ 2,00.
"As intervenções não podem ser vistas como a fixação de um piso ou de um teto", assegurou, acrescentando que o mercado vai se equivocar se pensar dessa forma.
O diretor-executivo do BBA Creditanstalt, José Berenguer
afirmou que o BC comprou dólares na sexta-feira antecipando uma forte entrada de recursos naquele dia que, aliás, foi comunicada por um dealer (instituição que opera no mercado em nome do BC. "O que houve hoje no mercado é o acerto de posições de instituições e empresas que estavam vendidas em dólar, mas o cenário é de mais entradas do que saídas de moeda, o que significa que a cotação pode recuar abaixo de R$ 1,72 novamente". A partir daí, o mercado vai testar se esse nível é piso ou não, argumentou.

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