São Paulo, 26 (AE)- O mercado aberto está derrubando o juro primário. Na sexta-feira, operações de financiamento de carteiras de títulos federais foram financiadas a termo para hoje por até 32,70%, contra a meta de taxa overnight de 34% ao ano definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião realizada há doze dias. Contrariando a expectativa, o BC não formalizou o corte do juro na sexta. O mercado, porém, não emite sinal de que vai jogar a toalha. Ao contrário, espera que nesta segunda-feira o BC se manifeste. Além dos fatores econômicos que justificam o corte do juro, como o impacto sobre as despesas financeiras do governo, a alta modesta da inflação frente à desvalorização do real acumulada desde meados de janeiro e o desaquecimento talvez exagerado da atividade que elevou a taxa de desemprego em São Paulo a quase 20%, o BC não deve desprezar um fator político, que é o desg aste da credibilidade da instituição provocado pelas apurações do Ministério Público, Polícia Federal e CPI do Sistema Financeiro sobre suposto esquema de venda de informações privilegiadas do BC ao mercado.
A credibilidade do BC e da equipe econômica pode ser arranhada ainda mais nesta segunda-feira, quando presta depoimento à CPI o ex-presidente da instituição Francisco Lopes. As principais revistas brasileiras voltaram a rechear o noticiário do final de semana com indicações de novos personagens e bancos que podem ter implicação com o tráfico de informações; a Época ampliou para o mercado de juros a mira até agora focalizada nas operações cambiais; e os jornais de maior circulação voltaram a abordar a tentativa de parlamentares aliados ao governo de evitar que as suspeitas alcancem o Ministério da Fazenda - órgão ao qual o Banco Central é subordinado.
O governo tem a seu favor neste momento, porém, o calendário e um arsenal respeitável de notícias que podem diminuir os ruídos provocados pela CPI, caso o depoimento de Chico Lopes coloque a Fazenda na berlinda. É primavera nos Estados Unidos, e o primeiro escalão da equipe econômica participa da reunião anual do FMI e Banco Mundial. Estão em Washington o ministro da Fazenda Pedro Malan, o secretário do Tesouro Eduardo Guimarães, o presidente do Banco Central Armínio Fraga e o diretor de Assuntos Internacionais Daniel Gleizer. Em território nacional está quem o mercado quer ouvir: Luiz Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária do BC, que tem sido responsável pelo anúncio de corte do juro primário. Da semana passada para cá, o governo conseguiu formar, porém, um estoque de informações que pode se mostrar precioso.
O presidente do BC deixou para anunciar nesta se gunda-feira às 9 horas da manhã, em Nova York, os detalhes sobre a troca de títulos da dívida externa brasileira (IDU e EI) por bônus globais com prazo de cinco anos para o vencimento. O lançamento, dividido em duas etapas, foi considerado um sucesso com a primeira etapa confirmando a compra de US$ 2 bilhões de novos títulos em dinheiro. A segunda etapa, de troca por "bradies" foi concluída na sexta-feira, mas Armínio Fraga não adiantou à imprensa qualquer detalhe desta operação, comprometendo-se a falar sobre o assunto hoje. Também contrariando as expectativas, na sexta-feira o Banco Central não divulgou o resultado consolidado das contas públicas referente ao primeiro trimestre do ano. O BC apresentou apenas dados referentes ao desempenho da área externa, apesar da convicção generalizada de que o governo apresentará bons números consolidados, confirmando o cumprimento do "critério de desempenho" definido pelo FMI e que prevê superávit primário (não inclui despesas com juros) em 31 de março de 2,7% do PIB ou R$ 6 bilhões.

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