Mercado de câmbio revive pânico do início do ano com alta do dólar
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sexta-feira, 20 de agosto de 1999
Por Tatiana Bautzer 
São Paulo, 21 (AE) - Para o mercado de câmbio, o País mudou da água para o vinho em dois meses. Da euforia com a reação da economia à desvalorização cambial, passou-se, na semana passada, a um cenário de pânico semelhante ao do início do ano. O auge do nervosismo ocorreu na sexta-feira, com o dólar batendo quase R$ 2 e acumulando alta de 15% em dois meses. Desta vez, o pânico ocorreu muito mais pela preocupação com a política do que por inconsistência macroeconômica.
"A deterioração prevista pelo mercado foi muito mais de natureza política e seus possíveis efeitos sobre o ajuste fiscal do que de fundamentos macroeconômicos", diz o economista do Lloyds Bank Adauto Lima. A maior decepção em termos macroeconômicos depois da desvalorização ocorreu em relação ao desempenho da balança comercial, que continua acumulando déficit. Mas as projeções dos analistas para variáveis como déficit em conta corrente, inflação e desempenho fiscal, embora tenham sido alteradas, não prevêem cenários catastróficos.
A maior dúvida fica por conta da meta fiscal para o ano 2000 - entretanto, as previsões mais pessimistas são de um superávit primário do governo central de 2,5%, ante a meta de 3 25% acertada com o FMI -, isso na hipótese de o governo não conseguir aprovar nenhuma nova medida fiscal no Congresso. O que o mercado teme é que o enfraquecimento político do presidente Fernando Henrique Cardoso, explicitado pelo fracasso da negociação da questão da dívida dos agricultores, dificulte a negociação de medidas do ajuste fiscal permanente, como a reforma da Previdência, e medidas de curto prazo para o cumprimento das metas com o FMI.
Para o ano de 99, o superávit de 3,1% do PIB exigido pelo acordo com o FMI parece estar garantido pelas receitas extraordinárias do início do ano. Outra razão da turbulência foi a reação inicialmente relutante do Banco Central à alta do dólar. Só na sexta-feira, o BC decidiu intervir com força, inundando o mercado de títulos cambiais e forçando a queda da cotação para R$ 1,88. "Talvez o nível de flutuação permitido tenha sido alto demais", diz o diretor do banco Bear Sterns, David Wheeler.
Além disso, o cenário interno ruim coincidiu com um período internacional desfavorável: a maioria dos analistas do mercado internacional espera que o Federal Reserve eleve as taxas de juros nos EUA em 0,25 ponto porcentual na terça-feira. O mês de setembro poderá registrar ainda tensões por causa do período pré-eleitoral na Argentina. Inflação - Embora o nervosismo de curto prazo seja justificado, até agora não há mudanças tão drásticas nos fundamentos econômicos que expliquem um nível permanente do dólar acima de R$ 1,90. "Devemos passar por uma situação de estresse até o ano 2000, com as metas do FMI sendo cumpridas de forma apertada, mas
por enquanto, não há nada que sugira uma ruptura", diz o economista da consultoria Tendências Roberto Padovani.
Em relação à inflação, a expectativa continua sendo de índices moderados para 99 e 2000. As estimativas para comportamento do IPC-A, o índice escolhido pelo governo para balizar o sistema de metas de inflação, variam entre 7,5% e 9% em 99 e entre 5,5% e 7% no ano que vem. Não se prevê descontrole da inflação, embora alguns fatores negativos, como os reajustes da gasolina, estejam pressionando os índices, lembra o economista Mauro Schneider, do ING Barings. A própria alta do dólar poderá contribuir para puxar a inflação, mas, por enquanto
não se prevê ultrapassar as metas previstas pelo BC.
Em relação ao desempenho das contas externas, o mercado espera um déficit de conta corrente ainda relativamente alto este ano (entre US$ 24 bilhões e US$ 26 bilhões), mas financiado em grande parte por investimentos diretos. Embora a balança comercial tenha decepcionado até agora, espera-se que as exportações melhorem no ano que vem com a elevação dos preços das commodities e reaquecimento de economias européias e asiáticas.
O economista-chefe do banco Bilbao Vizcaya, Octávio de Barros, prevê que o saldo comercial deste ano seja de US$ 532 milhões (bem abaixo da expectativa do governo), mas suba para US$ 5,26 bilhões no ano 2000. A tendência para o déficit em conta corrente é de queda em todas as previsões, embora algumas tenham sido revisadas recentemente para cima. Na média, o mercado espera déficit em torno de US$ 26 bilhões neste ano e financiamento de até 90% por investimentos diretos.
Alguns analistas prevêem algum nervosismo em dezembro, por conta de saques motivados pelo temor do bug do milênio, mas, para o ano 2000, a expectativa é de redução do déficit para algo em torno de US$ 24 bilhões, sem problemas excessivos para o financiamento.


