Mercado brasileiro fecha equilibrado após dia de alta tensão
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segunda-feira, 12 de julho de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez 
São Paulo, 13 (AE) - A Argentina, mais uma vez, ditou os rumos do mercado financeiro hoje, que oscilou entre o desespero, de manhã, e relativa euforia à tarde, na expectativa, depois confirmada, de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovaria um empréstimo para o país vizinho resolver sua necessidade de recursos externos até o próximo ano.
"Quem olhasse a bolsa (de valores) no fim da tarde - a Bovespa fechou em alta de 0,26% - não acreditaria que o índice chegou a cair mais de 3%", disse Júlio Ziegelmann, diretor de Renda Variável do BankBoston Asset Management.
As declarações do candidato do Partido Justicialista, Eduardo Duhalde, moderando sua posição - quase voltando atrás sobre um possível calote na dívida argentina - ajudaram a serenar os ânimos. Primeiro, no mercado argentino, estendo-se, depois, ao Brasil. Mas isso ocorreu à tarde.
Pela manhã, no pior momento do dia, a bolsa chegou a cair 3,67%; o dólar alcançou a cotação de R$ 1,87, uma alta de 1 96%. No fim do dia, a moeda norteamericana era negociada por R$ 1,825, em queda de 0,47%. O Banco Central chegou a fazer consultas ao mercado visando a uma intervenção no câmbio, que não chegou a confirmar-se.
Os juros tiveram o mesmo desempenho. A forte dispersão de taxas provocada pela turbulência no mercado levou o BC a cancelar o leilão de títulos prefixados, marcado para hoje. O mercado agradeceu. Não havia clima para realizá-lo e, caso insistisse em vender o lote de 500 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTNs), o preço seria alto demais e isso iria agravar o nervosismo que prevaleceu nos negócios da manhã.
Outra medida acertada, no entender de analistas e executivos financeiros, foi a decisão do BC de vender títulos de curtíssimo prazo, de apenas 28 dias, em leilão amanhã. Se for preciso vender títulos para administrar o excesso de dinheiro que existe hoje no sistema financeiro, argumentam analistas, que o governo venda papéis curtos.
Afinal, nas circunstâncias atuais do mercado, o juro pedido vai ser alto. "Vender papel a qualquer preço significaria trabalhar no sentido de aumentar a dívida pública e nada seria pior para o País neste momento", disse um analista.
O preço ficaria acima até dos 26% pagos no leilão da semana passada, quando o Tesouro voltou a vender papéis prefixados com prazo de um ano - atuação que o mercado considerou precipitada. Tenso e preocupado com os desdobramentos da crise argentina, o mercado abriu desesperado, jogando os juros na lua.
Para se ter uma idéia, os contratos de juros da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) de setembro (o mais negociado) chegaram a projetar taxa de quase 28%. Na véspera, projetavam 25 01% ao ano. "É um absurdo, considerando que o custo diário do dinheiro está em 20,87%", disse um operador.
É certo que os contratos futuros sempre embutem um prêmio para compensar os risco do prazo maior da operações. De qualquer forma, a diferença de oito pontos porcentuais neste caso não procede.
Operadores atribuíram a alta principalmente à necessidade de os fundos de investimentos e bancos que fazem hedge (proteção) no mercado futuro de Depósitos Interfinanceiros (DI) de desfazer os negócios que estavam dando prejuízo, diante da mudança de cenário com a situação argentina.
No jargão do mercado, esse movimento chama-se stop-loss. Como todo o mundo corre ao mesmo tempo, a taxa acaba pressionada. Mesmo assim, destacam, houve exagero.
NY - A insegurança em relação à América Latina fez a Bolsa de Nova York cair 0,2% e afugentou os investidores para os títulos do Tesouro dos EUA, cujos juros dos papéis de 30 anos caíram para 5,90%, os menores em seis semanas.
A recuperação, à tarde, não pode ser vista com otimismo exagerado. Ziegelmann, do BankBoston, afirma que a situação realmente vai estabilizar-se apenas se o pacote de ajuda do FMI realmente sair, lembrando que a desvalorização do real afetou demais a economia argentina, pesadamente endividada em dólares.


