Mercado brasileiro de ações está encolhendo
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sábado, 11 de setembro de 1999
Por Tatiana Bautzer 
São Paulo, 12 (AE) - O mercado brasileiro de ações está encolhendo, num movimento inverso à "euforia irracional" do norte-americano, conforme definição do presidente do Federal Reserve, o Fed, banco central dos Estados Unidos, Alan Greenspan. O volume de negócios nas bolsas brasileiras não pára de cair desde 1997. Toda semana, uma empresa pede o fechamento do seu capital porque não compensa gastar para manter a companhia aberta sem o acesso ao maior benefício - capital barato para financiar investimentos.
Em reais, o volume de negócios caiu 18% na Bolsa de São Paulo entre janeiro e agosto deste ano em relação ao mesmo período de 98. A bolsa já havia perdido no ano passado 20% do movimento em relação a 97. Até agosto deste ano, a Bovespa movimentou R$ 97,59 bilhões, ante R$ 119,09 bilhões no mesmo período de 98. Em 97, a bolsa movimentou R$ 206,44 bilhões.
A perda em dólares foi de 26,7% em 98, em relação a 97, elevada para 46,4% no início de 99 em decorrência da desvalorização cambial. Exatas 125 empresas fecharam o capital em pouco mais de um ano. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o número de empresas de capital aberto no País chegou a 1.018 em julho de 98; no fim do mês passado, havia caído para 893 empresas.
As perspectivas também não são muito animadoras. Analistas acreditam que o mercado de capitais brasileiro pode continuar a perder importância no mercado financeiro global nos próximos anos e dificultar a competitividade das empresas brasileiras.
Razões - As razões para o encolhimento do mercado de capitais são várias, segundo analistas. A cobrança da CPMF, que encarece os negócios, a transferência de liquidez para as bolsas dos Estados Unidos, com a negociação de American Depositary Receipts (ADR), as altas taxas de juros, o crescente desrespeito aos direitos de acionistas minoritários e a venda de empresas brasileiras para multinacionais, que têm acesso a mercados desenvolvidos e pouco interesse em captar recursos no Brasil.
A situação poderá piorar com a entrada de mais um concorrente para as bolsas brasileiras no mês que vem. A Bolsa de Madri deve começar a negociar em outubro ações de empresas brasileiras e de outros países da América Latina. Considerando a experiência dos ADRs nos Estados Unidos, é razoável supor que mais negócios sejam transferidos para o mercado espanhol, fortalecido pela moeda única européia. Negociar ações brasileiras em Madri será mais fácil que emitir ADRs: não haverá necessidade de converter balanços para outros sistemas contábeis. O projeto ainda precisa da aprovação da CVM.
A Bolsa de São Paulo rejeitou o acordo, mas a do Rio concordou com a proposta de Madri. "Achamos que é uma alternativa para criar negócio para o mercado do Rio", diz o presidente da BVRJ, Carlos Reis.Reis admite que poderá haver transferência de liquidez para a bolsa européia, mas o resultado
segundo ele, pode ser positivo para o mercado carioca, que receberá metade dos emolumentos resultantes dos negócios com empresas brasileiras. Devem ser listadas na Bolsa de Madri ações de grandes empresas brasileiras, como papéis de telecomunicações
petróleo e energia.
Enquanto a Bovespa vem perdendo negócios, o movimento é inverso na bolsa americana. A de Nova York considera um sucesso o seu programa de ADRs e vem ganhando negócios com as ações internacionais. O volume de negócios com ADRs brasileiros saltou de US$ 25,8 bilhões em 96 para US$ 94,9 bilhões no ano passado.
Concorrente - No primeiro ano da listagem das ações da Telebrás em Nova York, o movimento nos EUA correspondia a 35% do total dos negócios; neste ano, aproximou-se de 60%. O volume de investidores estrangeiros aplicando no Brasil também diminuiu.
A perspectiva parece ruim para as empresas brasileiras, que perdem competitividade por não ter acesso a capitais baratos. "Hoje a vantagem de ter capital aberto é muito pequena", diz o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Capital Aberto (Abrasca), Alfried Plger. "É impossível concorrer com essa taxa de juros; para empréstimo de longo prazo, o juro é de 40% a 50%; nenhum ativo fixo de empresa dá esse retorno."
"As companhias brasileiras terão seu tamanho limitado porque estão alijadas do movimento de fusões e aquisições, como o que ocorre com as empresas americanas, por exemplo", diz o presidente da Bovespa, Alfredo Rizkallah.
As grandes fusões nos EUA são feitas principalmente com trocas de ações. Empresas estrangeiras preferem fechar o capital quando adquirem companhias brasileiras para incorporar os ativos aos balanços nos EUA, lucrando com a enorme diferença de valorização das ações nos dois mercados. Enquanto a relação preço/lucro das ações brasileiras oscila entre 5 e 7, nos Estados Unidos pode chegar a 30.
"O mercado brasileiro só tem chance de crescer quando o governo fizer seu ajuste e uma reforma tributária decente", diz o diretor da Nikko Asset Management, João Máscolo. Segundo o executivo, a relação entre o valor de mercado das empresas brasileiras e o PIB gira em torno de 40%, enquanto em outros países da América Latina chegam a ter 70%. Para Máscolo, o mercado permanece ativo no Brasil porque tem "clientes cativos", como fundos de investimentos locais e fundos de pensão, que têm restrições para aplicar no exterior.
O presidente da Bovespa acha que o mercado brasileiro pode perder importância a cada dia se não forem tomadas medidas para incentivá-lo. Entre as sugestões de Rizkallah estão a isenção da CPMF e a desburocratização do Anexo IV, para facilitar a aplicação de recursos estrangeiros nas bolsas brasileiras.


