Mercado aumenta volume de crédito pessoal11/Mar, 17:43 Por Cleide Sánchez Rodríguez e William Salasar São Paulo, 11 (AE) - Os números são sintomáticos. O estoque das operações de crédito pessoal aumentou 69% no último ano, passando de um total de R$ 5,65 bilhões, saldo acumulado das operações prefixadas no fim de março de 1999, para R$ 9,55 bilhões em 17 de fevereiro deste ano, segundo dados do Banco Central (BC). Tão importante quanto a expansão das operações é a tendência firme de crescimento, acentuada a partir de agosto. Vários fatores levaram a um maior volume de crédito ao consumidor, como a quedas das taxas de juros, do índice de inadimplência, e o surpreendente desempenho da economia, apesar da turbulência causada pela mudança da política cambial no início do ano passado. O cenário determinou uma mudança de estratégias nas instituições financeiras, que passaram a ser mais agressivas e generosas na concessão do crédito. Grandes bancos começaram a oferecer empréstimos a seus clientes por malas diretas ou pela Internet, enquanto algumas financeiras, com estrondosas campanhas publicitárias, passaram a fechar operações por telefone, chegando a entregar os recursos em domicílio. A Losango, maior financeira do País, desenvolveu uma campanha cujo alvo foram os seus clientes tradicionais e bons pagadores. "Temos um cadastro de 12 milhões de clientes, que tratamos de conhecer a fundo e oferecer crédito a taxas de juros preferenciais. Isso alavancou nossa produção", disse o diretor de Operações da financeira, Manuel Vieira, sem divulgar os números de sua carteira. As financeiras, antes donas absolutas do mercado de crédito pessoal, ganharam concorrentes ferozes - os bancos, que precisam compensar a perda dos ganhos de tesouraria com a aplicação em títulos públicos. A queda brutal das taxas básicas da economia - de 45% ao ano em março de 1999 para 19% a partir de setembro - fez com que os bancos redirecionassem sua estratégia para outros alvos, como o empréstimo pessoal, observa Rogério Estevão, diretor de Marketing do Unibanco, terceira maior instituição privada do País. Novas opções - Há quase uma década, a carteira de empréstimos para pessoa física dos bancos sempre foi focada no cheque especial. Campanhas e mais campanhas publicitárias buscaram estimular os correntistas a utilizá-lo. Quem não se lembra do bordão: "Isso não é importante. O importante é que o Real dá dez dias sem juros no cheque especial". A questão, de acordo com Estevão, é que esse mercado já está maduro, sem perspectiva de crescimento a não ser com o aumento na base de correntistas. O cheque especial também não pode ser considerado um instrumento de crédito, e sim um "atendimento de pronto-socorro" para eventuais saques a descoberto na conta corrente. O cheque especial tem os encargos mais altos do mercado justamente pela dificuldade das instituições financeiras em administrar esse tipo de crédito, disse o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito e Financiamento e Investimento (Acrefi), Henrique Pereira Gomes. Ele compara a situação da pessoa física com a da empresa que, tendo a oportunidade de financiar um investimento pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em vários anos, opta por tomar dinheiro no curtíssimo prazo e precisa cobrir o empréstimo dia a dia. O caminho dos bancos, portanto, tem sido o de aproveitar o cenário favorável à expansão do crédito para oferecer mais recursos aos bons pagadores. Há cerca de um ano, o Unibanco passou a trabalhar com o crédito pessoal parcelado, oferecendo o produto para sua clientela, por meio de mala direta. O modelo é similar ao da Losango, que trabalha com crédito pré-aprovado. Os limites já aprovados chegam a R$ 1,5 bilhão, dos quais 25% já foram emprestados. A perspectiva é que o volume das operações de crédito em geral cresça cerca de 30% neste ano, incluindo as demais linhas de financiamento. Esse parece ser um número comum para o mercado. A Losango também projeta uma expansão de 30%, no mínimo, contando não só com o crescimento da economia, mas também com novas reduções de juros, derivadas da diminuição da inadimplência. De acordo com o BC, a taxa do crédito pessoal passou de 6,79% ao mês em fevereiro de 1999 para 4,69% ao mês em fevereiro deste ano. Segundo Vieira, a inadimplência, que entra no custo do empréstimo, dá sinais de cair neste início de ano. A taxa começou o ano com índices estáveis, quando historicamente todo primeiro trimestre é de aumento do crédito ruim. "Se isso for confirmado, vai se refletir em diminuição do juro cobrado ao financiado", observa Vieira. O diretor-gerente do Itaú, Edelver Carvonali, atribui parte da melhora do desempenho do crédito pessoal não apenas à queda da inadimplência, mas também à ampliação do prazo de financiamento, que reduz o valor da prestação, ajustando-a mais facilmente aos orçamentos dos tomadores. No caso do Itaú o prazo chega a 24 meses - no Unibanco o prazo do crédito pessoal parcelado é de 12 meses. Prazo maior e estabilidade são fatores que levam o cliente a fazer mais empréstimos, disse Carvonali. De olho nesse mercado, a Finaústria, financeira do BBA Creditanstalt, vai relançar, no fim deste mês, o crédito pessoal, mas oferecendo os recursos para os bons clientes da carteira de veículos, o principal produto da casa. "A demanda vai ser grande porque vamos cobrar metade dos juros oferecidos pelo mercado", diz José Alfredo Teixeira, diretor de marketing da Fináustria. A estratégia é reduzir ao máximo os custos operacionais. A instituição desativou, em dezembro, a rede herdada do Mappin. "Era uma estrutura grande, com ponto de venda na rua, que exigia investimentos elevados na manutenção das lojas e em marketing. Isso diante de uma pesada concorrência", disse o diretor de marketing da Fináustria. Migração - Além da expansão generalizada do crédito, o crescimento do empréstimo pessoal indica uma reorganização das carteiras dos bancos, com esta linha ganhando mercado de outras, como o pré-datado, o cartão de crédito e o cheque especial. Muitos clientes estão também renegociando suas dívidas do cheque especial, transformando-as em empréstimo pessoal. Aproveitam as taxas de juros menores e os prazos maiores. De acordo com dados do BC, em fevereiro último a taxa média das operações de cheque especial era de 7,72% ao mês, comparada aos 4,69% ao mês no crédito pessoal. Carvonali, do Itaú, afirma, no entanto, que essas renegociações de dívidas não estão incluídas na carteira de crédito pessoal parcelado. "Essa linha pré-aprovada destina-se aos bons pagadores, e os clientes com dívidas antigas são classificados em outra modalidade de financiamento, cujas condições são diferentes". Gomes, da Acrefi, admite que os números disponíveis carecem de um detalhamento maior, podendo não mostrar tão claramente a migração de carteiras. Mas também destaca que os profissionais percebem essa passagem das outras modalidades para o crédito pessoal no dia-a-dia.