Rio, 10 (AE) - O deputado Aloízio Mercadante (PT-SP) será ouvido amanhã (11) em Brasília pelo delegado federal Rubens Grandini, encarregado da investigação sobre o grampo telefônico no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O inquérito deveria ter retornado hoje ao Ministério Público Federal (MPF) do Rio, mas o delegado pediu aos procuradores uma prorrogação de 15 dias para interrogar Mercadante, que, apesar de vir sendo intimado a depor há dois meses, não havia dado resposta.
Quando receber de volta os autos, o MPF vai pedir à 2ª Vara Federal do Rio a quebra do segredo de Justiça do inquérito.
"É importante que a sociedade tenha acesso aos autos e saiba tudo o que foi feito para a apuração dos fatos", disse a procuradora da República Silvana Batini, uma das responsáveis pelo caso. A preocupação do Ministério Público justifica-se: não há indiciados no inquérito conduzido por Grandini e caberá aos procuradores denunciar possíveis culpados. "Só vamos indiciar pessoas depois de analisarmos os autos e verificarmos as provas", ponderou Silvana.
Segundo fontes da Polícia Federal (PF), o delegado está convicto de que o grampo foi obra de um grupo de arapongas ligados à Agência Brasileira de Informações (Abin) e à antiga empresa Telecomunicações do Rio de Janeiro (Telerj). Entre os suspeitos investigados por Grandini, estão o agente Temilson Antonio Barreto de Resende, o "Telmo", lotado no escritório do Rio - e réu no processo que apura a lista de policiais e autoridades que recebiam suborno do falecido bicheiro Castor de Andrade - e o ex-cabo da Marinha Adilson Alcântara de Matos, que seria sócio dele numa "empresa" de escuta clandestina.
Grandini, no entanto, não considerou ter provas suficientes para os indiciar - e a investigação passou ao largo de possíveis mandantes. O coronel reformado da Aeronáutica Eudo Santos Costa, que responde a outro inquérito por grampo na PF, entrou na lista de suspeitos de Grandini. Mas o delegado concluiu que o coronel foi "plantado", numa espécie de contra-informação. Costa foi pego em flagrante com uma van repleta de fitas com gravações e equipamentos de escuta. Segundo apurou a PF, o coronel foi avisado para esvaziar o escritório porque a polícia iria dar uma batida. Em seguida, o informante avisou à PF - que só fez parar a van para encontrar tudo o que queria.
Até hoje, foram ouvidas 52 pessoas no inquérito e Mercadante será o último. Em depoimento, o ex-presidente do BNDES André Lara Resende contou ter sabido da existência das gravações por intermédio do deputado, amigo pessoal dele, que disse a ele ter tido acesso às fitas. Mais tarde, porém, Mercadante disse apenas ter tomado conhecimento do conteúdo das gravações. O depoimento do deputado foi pedido pelo MPF há 60 dias e fazia parte de uma lista que incluía o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso, o ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas e o ex-presidente da Telerj na gestão do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Eduardo Cunha - apontado por testemunhas como envolvido no caso. Um diretor da área técnica da Telerj, de sobrenome Meirelles, também teve o nome incluído na lista.
Os depoimentos de Cardoso e de Caldas foram considerados decepcionantes pela polícia. O general não confirmou que as duas fitas apresentadas pela Abin - que, aliás, são as únicas incluídas no inquérito, apesar de a imprensa ter tido acesso a mais gravações - foram encontradas sob um viaduto em Brasília. Ele alegou que os agentes dele encontraram o material e, portanto, não podia garantir onde estava. O ex-secretário limitou-se a elogiar os ex-chefes.
O novo prazo para o reenvio do inquérito vai permitir, porém, a anexação de duas provas importantes. Uma, o laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC), que concluiu: o grampo foi posto nas quatro linhas diretas que serviam à presidência do BNDES. A outra é o cruzamento de extratos telefônicos de envolvidos nas investigações.

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