Na ficção, uma avó rejeita a neta porque ela tem síndrome de Down. Na vida real, é possível superar o impacto inicial da notícia de ter um filho com Down e transformar preconceito em aceitação. O primeiro passo é saber que a síndrome não é doença, mas uma alteração genética que pode acontecer com qualquer pessoa.
O neurologista Aparecido José Andrade, de Londrina, explica que essa alteração ocorre no momento da concepção, quando tem início a primeira divisão celular embrionária. Ao invés de formar um par como todos os outros cromossomos, o de número 21 se junta em três. Essa alteração, também chamada de trissomia do cromossomo 21, é a mais comum a causar a síndrome de Down. Mas, a alteração ainda pode acontecer de outras duas formas diferentes - uma em que a pessoa tem um pedaço do cromossomo 21 translocado em outro cromossomo, e outra, chamada de mosaicismo, em que algumas células têm o par normal do cromossomo 21, e outras células não.
''Nada que aconteça durante a gravidez, se a mãe ficou mais nervosa, ou se tomou algum medicamento, vai influenciar na ocorrência ou não da síndrome de Down'', explica a psicóloga Solange Leme Ferreira, coordenadora de um projeto de teatro para pessoas especiais na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O neurologista explica que na maioria das vezes, em 95% dos casos, a síndrome acontece ao acaso, mas em outros, a presença de casos na família pode influenciar. A incidência da síndrome, conforme Solange, variou de 1 caso para cada 600 nascimentos, em 1990, para 1 para cada 1.000 nascimentos, hoje.
Como todas as síndromes, a de Down tem um conjunto de sintomas que a caracterizam - uma das mais marcantes é o olho ''puxado'', causado na verdade pela existência de uma prega no epicanto interno dos olhos. Quem tem Down também pode ter hipotonia (tônus muscular mais fraco), olhos amendoados, maior espaço entre os dedos dos pés, prega palmar única (ao invés de formar um 'M'), dentes de tamanho menor, pescoço mais curto e cabelo mais fino e liso. ''Mas, são características que podem variar muito de pessoa para pessoa'', avalia a psicóloga.
A expectativa de vida de quem síndrome de Down também aumentou e passou de 50 anos, em 1989, para 70, atualmente - primeiro pela melhora da qualidade de vida de toda população, e depois pelo avanço das intervenções médicas e cirúrgicas. Esses ítens repercutem em outra das características de quem tem Down - 40% deles tem problemas cardíacos e 5% a 10% malformações intestinais, além de infecções respiratórias mais frequentes.
A parte cognitiva também é afetada, e a pessoa que tem síndrome de Down tem deficiência mental, mas isso não impede que sejam indivíduos desenvolvidos, autônomos e independentes. ''Isso depende de intervenção preventiva'', avalia a psicóloga. Por isso, quem tem síndrome de Down precisa já nos primeiros dias de vida de acompanhamento com fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia. 'São crianças extremamente sociáveis e capazes de aprender o que se ensina, com habilidade para música e dança, mas com certa dificuldade para matemática. São pessoas que podem trabalhar, namorar e casar como qualquer outra'', afirma Andrade.

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