Menos filhos, mais oportunidades
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de maio de 2012
Carolina Avansini <br> <br> Reportagem Local 
A comerciante Elisa Ivano, 33, engravidou da filha Beatriz aos 22 anos. Apesar de jovem e apta a ter outros filhos, ela não quis. O mesmo ocorreu com a cabeleireira Maria José Fernandes Villatore, 47, mãe do adolescente Giovane, 16. A motivação das duas moradoras de Londrina foi a intenção de oferecer aos filhos a melhor educação e qualidade de vida possíveis.
QUALIDADE DE VIDA
As famílias brasileiras estão menores
Ambas as mulheres representam uma tendência constatada no Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada no início do mês. Ao contrário das mães ou avós, as brasileiras estão controlando a natalidade e preferindo ter um ou, no máximo, dois filhos.
O rápido envelhecimento da população é uma das consequências do fenômeno. O comportamento abre também o que os demógrafos chamam de ''janela de oportunidades'' ou ''bônus demográfico''. Na prática, significa que o nascimento de menos crianças amplia as possibilidades de investimento na melhoria do atendimento à população infanto-juvenil, com mais qualidade em educação e saúde, entre outras demandas.
De acordo com o resultado das amostras do Censo 2010, a taxa de fecundidade no Brasil apresentou queda de 20,1% na última década, passando de 2,38 filhos por mulher, em 2000, para 1,90 em 2010. O índice está abaixo do chamado nível de reposição (2,1 filhos por mulher) que garante a substituição das gerações. O declínio ocorreu em todas as regiões, atingindo níveis mais baixos no Sul e Sudeste. No Paraná, a taxa de fecundidade ficou em 1,85.
Conforme a pesquisadora Marisa Magalhães, do Ipardes, em países europeus com taxas de fecundidade entre 1,4 e 1,5 filhos por mulher, a população está decrescendo. A perspectiva é que até 2030 ou 2040 a população brasileira mantenha-se estável e, a partir daí, comece também a descrescer.
Segundo Marisa, o que se espera é que as crianças que estão nascendo agora recebam mais investimento financeiro e emocional. O impacto disso deve ser sentido em 20 ou 30 anos. Caso seja aproveitada essa janela de oportunidades, nas próximas décadas haverá adultos com melhor formação e mais condições de permanecerem saudáveis.
A vantagem do atual comportamento demográfico é que, com uma população menor de crianças, há uma demanda menor por estruturas físicas para atendê-las, como por exemplo as escolas. Esse contexto aumentaria as possibilidades de investir na melhoria do atendimento à população infanto-juvenil, com mais qualidade em educação e saúde, entre outros exemplos.
''Essa janela se abriu há 20 anos, mas se as melhorias aconteceram nesse período é outra questão. Em parte, dados como redução das taxas de analfabetismo e mortalidade infantil mostram isso. Por outro lado, o número de jovens com 17 anos fora da escola é alto e temos um problema grave de analfabetismo funcional no País. Tem melhorado, mas há problemas''.
Segundo a pesquisadora, para que a janela de oportunidades seja efetivamente aproveitada, o País precisa continuar crescendo e investir na oferta de empregos, qualificação da mão de obra, profissionalização dos jovens e creches que permitam às mães trabalharem.
Ela alerta ainda que as famílias estão menores, mas continuam pobres. ''Os pais e irmãos mais velhos precisam trabalhar e as crianças menores ficam sozinhas, o que causa desagregação familiar. As estatísticas são bem favoráveis, mas é necessário um olhar cuidadoso para as famílias por trás dos números.''


