Menos da metade dos ex-prefeitos está representada em Londrina
Para especialista, os escolhidos para receber homenagens na cidade foram os administradores que interferiram na paisagem urbana
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de abril de 2019
Para especialista, os escolhidos para receber homenagens na cidade foram os administradores que interferiram na paisagem urbana
Edson Neves 
Com Marcelo Belinati, Londrina tem o seu 30º prefeito ao longo dos seus 84 anos de história. E como forma de homenagem aos que fizeram parte da história, o município tem 12 ex-prefeitos representados em vias, logradouros públicos e escolas, entre outros. No entanto, são 20 ex-chefes do Executivo municipal que poderiam receber a deferência.Na pesquisa, a reportagem tomou como base as informações da seção “Histórico dos Prefeitos” do portal da Prefeitura de Londrina e também do “Perfil do Município de Londrina – 2018”. Esta publicação contabiliza apenas os efetivos e interinos com período superior a três meses no cargo. Também contou com o auxílio da diretoria de Patrimônio Artístico e Histórico-Cultural de Londrina.

Entre os nomes homenageados estão o do primeiro prefeito de Londrina, Joaquim Vicente de Castro (1897-1985). Nomeado pelo então governador Manoel Ribas, ficou à frente do Executivo entre 1934 e 1935, se tornando nome de escola no conjunto Aníbal Siqueira Cabral, na zona sul. Willie da Fonseca Davids (1893-1944), primeiro prefeito eleito, ficou de 1936 a 1940 no cargo e ganhou a honraria em uma escola estadual na Vila Casoni, além de dar o nome a uma das praças do Calçadão, que abriga também um monumento em seu nome.
Também nomeados, o capitão Miguel Balbino Blasi* e major Achilles Pimpão Ferreira (1901-1987) governaram Londrina na década de 1940 e são, respectivamente, alameda no centro e estrada na zona leste. Já Odilon Borges de Carvalho* foi prefeito interino de Londrina por alguns meses em 1946, mas “ganhou” uma avenida no jardim Shangri-Lá B com o seu nome. Seu sucessor, Ulisses Xavier da Silva*, também foi interino e virou nome de praça no jardim Santiago (zona oeste) e, com o apelido de “Vivi”, em um dos maiores bairros dos Cinco Conjuntos. Foi também um dos fundadores da SRP (Sociedade Rural do Paraná). Prédios como o da Secretaria de Cultura e do Museu de Arte são frutos da gestão de Hugo Cabral (1889-1962), entre 1947 e 1951.
EXPANSÃO URBANA
Durante as décadas de 1950, 1960 e início de 1970, o número de habitantes praticamente dobrou em Londrina. Prefeitos como Milton Ribeiro Menezes (1914-1997), Antônio Fernandes Sobrinho (1923-1986) e José Hosken de Novaes (1917-2006) foram responsáveis por importante obras de expansão urbana.

Menezes, que foi prefeito de 1951 a 1955 e de 1959 a 1963 foi responsável pelo investimento em infraestrutura para o abastecimento com água potável. Já Fernandes Sobrinho, prefeito na gestão 1955-1959, deixou como marca a barragem do Lago Igapó e a Concha Acústica. Novaes, no cargo entre 1963 e 1969, deixou como legado a Sercomtel e a Cohab-Ld (Companhia de Habitação de Londrina).
Menezes “virou” nome de avenida na zona norte e bairro na zona leste; Sobrinho, uma rua quase desconhecida no centro, e Novaes foi homenageado em uma escola municipal no Jardim Bandeirantes, na zona oeste.
Único representante da década de 1970, quando comandou o Executivo londrinense de 1973 a 1977, José Richa (1934-2003) recebeu duas homenagens com a titulação de governador: no CEI (Centro de Educação Infantil) no conjunto Habitacional Violim (zona norte) e o Aeroporto. No legado de Richa, estão o estádio do Café, as sedes do Tiro de Guerra e Corpo de Bombeiros, além da Via Expressa.
O último dos homenageados foi prefeito da cidade de 1983 a 1989: Wilson Moreira (1923-2008). Ele foi o mentor de obras como a avenida Leste-Oeste, o novo Terminal Rodoviário, o Terminal Urbano Central e o anfiteatro do Zerão.

QUANTIDADE E QUALIDADE
Especialista em Patrimônio Cultural e Identidades, Vanda Moraes explica que os escolhidos para receber as homenagens foram os prefeitos que interferiram na paisagem urbana da cidade. “Na gestão Antônio Fernandes Sobrinho teve a barragem do Lago Igapó e a Concha Acústica, obras que fazem parte da nossa identidade cultural. Já o Wilson Moreira contribuiu com obras de infraestrutura, como a avenida Leste-Oeste e a retirada da linha férrea do centro. O Dalton Paranaguá expandiu a cidade de uma maneira única. O Milton Ribeiro de Menezes também foi um dos nomes importantes”, cita.
Moraes ainda considera importante a homenagem aos antigos chefes do Executivo no batismo de vias e logradouros públicos. No entanto, para ela, a maior homenagem aos ex-prefeitos consiste na preservação do que foi feito. “A quantidade é um denunciativo da qualidade. As obras impõem uma marca na cidade e se tornam uma consideração especial com as formas de representação”, complementa.
Segundo a especialista, o legado da cidade poderia ser mais bem reproduzido para as novas gerações. Ela reconhece que existe um esforço por parte da secretaria de Educação quando se trata da história de Londrina, mas que outras ações poderiam ser realizadas. “Somente com as aulas de história do município é impossível falar de tudo para as crianças. Em uma placa de rua, por exemplo, pequenas frases que contextualizam a importância da pessoa e de suas obras já seria uma forma de contribuir.”
DESCONHECIMENTO

A fala de Moraes se reflete no dia a dia do londrinense. No balcão de um bar na rua Prefeito Hugo Cabral, Ademir Mota, 47, sequer sabia que o homenageado faz parte da história da cidade. “Sinceramente não sei dizer quem ele foi. Nem sabia que foi prefeito daqui.” Ambulante há cerca de 30 anos, Maria José Lopes Ferreira trabalha em frente à praça Willie Davids, mas também não sabia que o homenageado foi o primeiro prefeito eleito de Londrina. “Só desconfiava de que era algum homem público”, declara.
Com as placas em péssimo estado, é difícil de saber que ao lado da praça Sete de Setembro existe a rua Prefeito Antônio Fernandes Sobrinho. “Trabalho aqui há quatro anos e sempre informei que o endereço era a praça, ou então dava alguma referência”, conta Rogério Horácio, que trabalha no projeto Economia Solidária.
INICIATIVA DEPENDE DE PROJETO DE LEI
Se nos primórdios o ato de denominar algum logradouro ou bem público era feito por meio de decreto, atualmente a iniciativa depende de projeto de lei, seja de autoria do Executivo ou do Legislativo. Entre outras normas dispostas na lei 7631/1998, está a que veda a homenagem de personalidades vivas, e coloca como preferencial a homenagem a pessoas com significado cívico e cultural na cidade.
O artigo 212 da Lei Orgânica do Município reforça o veto a atribuição de nomes de pessoas vivas a bem público de qualquer natureza e indica as exigências mínimas que o projeto de lei deverá conter. Entre os requisitos estão a inclusão de um “currículo” ou dados biográficos do homenageado. A Lei Orgânica também define a competência aos familiares para escolher a forma que será registrado o nome do homenageado.
A homenagem mais recente aconteceu em 2018, em projeto do vereador Pastor Gérson Araújo (PSDB) e que se tornou a lei 12.730/2018, designando ao prédio da Prefeitura de Londrina o nome de Wilson Moreira, prefeito na gestão 1983-1988.
SENTIMENTO ERA DE RECOMPENSA
“Sentimos muito orgulho em saber que ele é lembrado até hoje. Recebo elogios dizendo que devo ter orgulho de ser filha dele”, disse Gilza Rodrigues Moreira, filha mais velha de Wilson Moreira. “(Meu pai) fez obras como a Leste-Oeste, finalizou a Rodoviária e ainda acompanhou a construção do estádio do Café quando ainda era secretário de Obras do José Richa”, cita. Gilza completa dizendo que, pelo fato de o pai ter constituído família e crescido profissionalmente em terras londrinenses, o sentimento era de recompensa. “Ele achava que deveria trabalhar para a cidade, já que tudo o que ele tinha era devido a Londrina.”
Caçula de Milton Ribeiro Menezes, Ana Rosa Menezes revela que a família sempre ouve histórias engraçadas de seu pai. “Parece que faz parte de um folclore”, conta, bem humorada. “Pelo menos as informações são sempre boas. Nós só temos a agradecer à cidade que meu pai escolheu para viver.”
A filha do prefeito de Londrina nas década de 1950 e 1960 ainda revelou um caso inusitado ocorrido logo após o falecimento de Milton Menezes, em 1997. “Um grupo queria mudar o nome da avenida Higienópolis para avenida Milton Ribeiro de Menezes. Nós da família achamos um absurdo. Trocar o nome de uma avenida tão reconhecida? Mas não foi para frente”, relata Ana.
*Ex-prefeitos que a reportagem não conseguiu confirmar os anos de nascimento e morte.



