Acusações de crimes como tortura, cárcere privado, existência de armamento pesado e estupro de menores, que estariam ocorrendo no maior acampamento de sem-terra do Paraná, na área conhecida como Bacia, no município de Quedas do Iguaçu (165 km a leste de Cascavel), estão sendo desmentidas pelas próprias autoras, três menores filhas de ex-sem-terra. Segundo dirigentes e advogados do Movimento dos Sem Terra (MST), um casal prometeu pagá-las (R$ 10,00 a cada uma) para fazer as acusações. A polícia obteve 22 mandados de prisão preventiva com base nas denúncias e já cumpriu dois.
A origem do caso está em declarações feitas por Jovelino da Silva, 61 anos, e sua mulher, Maria da Silva, 50. Eles teriam procurado a Polícia Militar, em maio, para dizer que haviam sofrido vários tipos de ameaças dos coordenadores do acampamento e por isso ‘‘fugiram’’.
No dia 20 daquele mês, parte da imprensa de Cascavel foi convidada pelo 6º Batalhão de Polícia Militar para ouvir Jovelino e Maria, que relataram os supostos crimes que estariam ocorrendo no acampamento. As declarações tiveram grande repercussão em todo o Estado, e provocaram imediata reação do MST. Um dos coordenadores estaduais, Rogério Mauro, disse que o casal teria feito as acusações por haver sido afastado do acampamento. Os coordenadores descobriram que Jovelino já havia recebido terra do Incra em outra região (em 86) e a abandonou (em 92). Por isso, não poderiam receber terras novamente.
Segundo Mauro, a conclusão do MST é de que o casal só teria ido para a Bacia ‘‘para atuar como espiões a mando do dono do latifúndio ou das forças que o apóiam, para desmoralizar o movimento e criminalizá-lo’’. A advogada do MST na região, Andréia Indalêncio, relatou ontem que, posteriormente, Jovelino e Maria foram à Delegacia de Polícia de Quedas do Iguaçu, acompanhando as menores C.R.Q., 14 anos, e sua irmã L.R.Q, 15, e E.R.S, 15, filhas de sem-terra que participaram da ocupação da Bacia. ‘‘As três foram apresentadas como testemunhas das acusações’’, disse Andréia Indalêncio.
As adolescentes teriam acrescentado que suas famílias foram expulsas do acampamento porque elas não aceitaram fazer sexo com coordenadores. Ainda segundo a advogada, a Polícia ouviu as menores ao mesmo tempo, na mesma sala, sem presença de pais, responsáveis e advogado. Apenas o casal as acompanhavam, ‘‘em todos os casos de forma irregular’’. Mais tarde, Andréia foi procurada pelas mães das garotas, que contou sobre o acordo de R$ 10,00 para que elas fizessem as acusações. A mãe teria dito também que as menores estavam arrependidas.
Andréia acrescenta que as menores passaram a ‘‘receber ameaças anônimas’’ desde que se dispuseram a desmentir as denúncias. Outra advogada do MST, Cristiane Martins, disse ter tentado várias vezes convencer a Polícia de Quedas do Iguaçu a tomar novo depoimento das menores. Cristiane vai recorrer ao Ministério Público. O advogado Darci Frigo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT/PR), afirma que ‘‘o caso é realmente muito grave’’.
As acusações deixaram mais tenso o clima na área e provocaram protestos em Quedas do Iguaçu. São 1,3 mil famílias que há 15 meses ocupam a Bacia, uma área de 5 mil hectares de propriedade da empresa Araupel.

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