São Paulo, 28 (AE) - Jorge Rodrigo Ferreira, o jovem de 17 anos morto com pauladas e estiletadas na manhã de ontem (27) durante a rebelião no cadeião de Santo André, SP, teve sua liberdade assistida decretada depois de sua morte. A ordem foi dada por volta das 16 horas do juiz Rodrigo Soares, do Departamento de Execuções da Infância e Juventude. "Evidentemente nós desconhecíamos o que tinha acontecido com ele", disse.
Sem saber que o filho tinha sido a sexta vítima da violência na Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) este ano, a mãe de Jorge, Aparecida de Souza Ferreira, comemorou quando soube que ele seria solto no dia seguinte. "Fiquei muito feliz porque ele ia conhecer a filha que nasceu há duas semanas", disse. "Eu já sabia da rebelião, mas jamais me passou pela cabeça que meu filho estivesse morto."
A família de Jorge foi avisada do assassinato às 23 horas de ontem por um funcionário da Febem. Uma tia e uma prima fizeram o reconhecimento do corpo, porque a mãe não teve coragem de entrar. "Estava esperando ele voltar para casa vivo."
Enterro - Hoje à tarde Jorge foi enterrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus. O corpo chegou às 15h20 e foi velado até as 17 horas por cerca de 20 familiares. Segundo uma tia, muitos parentes não puderam acompanhar o enterro por falta de dinheiro para a condução. Alguns fizeram vaquinha para colocar gasolina no carro de um vizinho e outros chegaram de lotação. Muitas crianças acompanharam o cortejo descalças. Ao chegar, Aparecida foi avisada de que teria de pagar R$ 183,00 para o enterro. Depois, a Febem se comprometeu com as despesas e a Pastoral do Menor arcou com os R$130,00 do custo de conservação da sepultura e colocação da placa de identificação.
Às 16h10, o padre Júlio Lancelotti fez uma oração ao lado do corpo e criticou o governo. "É uma vergonha que um jovem sob custódia do Estado seja morto; a responsabilidade é de quem matou e de quem deveria mantê-lo em segurança." Segundo a mãe de Jorge, o filho nunca se queixou de maus-tratos por parte dos colegas, mas reclamava de torturas de monitores. No dia 1º ela foi à Promotoria da Infância e da Juventude dizer ao promotor Ebenézer Salgado Soares que tinha encontrado o filho no cadeião "muito triste, deprimido e chorando, principalmente porque não participava de atividades escolares e profissionalizantes". No termo de comparecimento, a mãe afirmou ainda que Jorge lhe confidenciara que havia sido "amarrado, imobilizado e agredido por monitores com socos e pontapés no dia 24 do mês passado".
O adolescente foi para a Febem pela primeira vez em 1996 por causa de furto. Foi posto em liberdade assistida e voltou à fundação há seis meses por roubo de carro. Antes de ser internado, ajudava o pai caminhoneiro, que foi assassinado há um ano e quatro meses.
Transferência - Dezessete menores foram transferidos hoje do cadeião de Santo André. Eles são suspeitos de terem participado do assassinato de Jorge. De acordo com o Conselho Tutelar da cidade, os menores foram levados para o quadrilátero do Tatuapé e, de lá, 11 seguiriam para o Centro de Observação Criminológica.
No 4.º Distrito Policial de Santo André, os 17 internos disseram que são inocentes, acusaram os monitores da morte e voltaram a reclamar de maus-tratos. Eles denunciaram o diretor do cadeião e monitores conhecidos como Juarez, Mateus e João como autores de torturas. "Os homi tem bronca de nóis porque nóis não dá boi para eles e quando vem bater a gente não deixa; por isso falaram que nóis tá envolvido", disse um deles. Antes de deixarem o DP, todos foram chamados a assinar o auto de prisão em flagrante. Procurada durante toda a tarde, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social não tinha se pronunciado até as 19h30 sobre as acusações.
Tensão - Por volta das 13h30, a tensão tomou mais uma vez conta do cadeião. Assustados com internos que teriam estourado cadeados, funcionários da frente de trabalho saíram correndo pelo portão, gritando frases como não tenho seguro de vida para ficar aí. Eles não quiseram explicar o que aconteceu, por medo de demissão.

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