A maioria dos menores infratores de São Paulo não rouba para comer, mas para poder consumir objetos como tênis, roupas e relógios. Dessa forma, eles reproduzem os principais valores da sociedade capitalista. Foi isso o que concluiu a psicóloga Simone Mesquita Rigueiro, após um ano e três meses de trabalho no Fórum das Varas Especiais de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo.
A partir da experiência, ela desenvolveu o trabalho ‘‘A Adolescência Infratora e a Perspectiva do Herói’’, que expôs hoje no 2º Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana, que, até hoje, reunirá cerca de 500 psicólogos no Hotel Glória, no Rio.
‘‘O menor infrator toma atitudes baseadas na idéia do herói que é a pessoa forte que vence após destruir o inimigo’’, explicou a psicóloga. ‘‘Na nossa sociedade, pessoa forte é o que possui bens porque nossa cultura mede o sucesso a partir das coisas que se tem.’’
A psicóloga disse que a maioria dos infratores pertence à classe baixa e tem por volta dos 17 anos. Eles cometem ‘‘crimes leves’’ como furtos ou assalto à mão armada. Quase todos são encaminhados à Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), uma instituição que, segundo a psicóloca, ‘‘é mais perversa do que os jovens que chegam lᒒ.
‘‘Jovens de classe média não chegam à Febem, mas cometem as mesmas infrações que os de classe baixa’’, afirmou.
Carioca, 30 anos, Simone foi vítima de violência. Ela admite que, naquele momento, sentiu medo e raiva, como acontece com a maioria das vítimas. ‘‘Eu entendo o que está por trás da situação’’, disse. ‘‘Mas não quero encontrar com esses infratores na rua porque sei que são perigosos.’’
O objetivo do trabalho, segundo a psicóloga, é o de ‘‘alertar para a inversão de valores’’ em que vive a sociedade. ‘‘Temos uma cultura que facilita e um governo que não ajuda’’, afirmou. ‘‘Particularmente, sou pessimista e não vejo uma solução a curto prazo.’’
Dentro dessa inversão de valores, ela cita os exemplos de corrupção entre políticos e policiais, pessoas que, em princípio, deveriam ser exemplos de honestidade. ‘‘As pessoas estão sem referência do que é certo, dos limites, do que é a lei, já que a lei só existe para alguns’’, avaliou.
Na opinião dela, os infratores querem ter uma lei. ‘‘O limite com afeto é o que forma o ser humano’’, disse. ‘‘Os infratores precisam disso e não encontram.’’ Assim, Simone acredita que só com educação se muda esse quadro e não com a construção de presídios para adolescentes, como aconteceu em São Paulo.
‘‘A sociedade não quer, sinceramente, que esses jovens sejam reeducados e prefere os excluir, confiná-los’’, analisou. ‘‘Essa é uma forma de jogar a sujeira para debaixo do tapete e, um dia, essa sujeira começará a sair por todos os lados.’’

mockup