Menino que recebeu dos pulmões dos pais se recupera bem e já fala em jogar futebol
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terça-feira, 21 de setembro de 1999
Por Ayrton Centeno 
Porto Alegre, 21 (AE) - Henrique Busnardo, de 12 anos, que recebeu partes dos pulmões dos pais, quer "jogar futebol", seu esporte favorito, tão logo saia do hospital. É a primeira coisa que gostaria de fazer, disse hoje, em entrevista. Há quatro anos Henrique não faz isso. Com bronquiolite, uma doença degenerativa que afetou drasticamente sua capacidade respiratória, Henrique foi operado na sexta-feira. Hoje o chefe da equipe de transplantes da Santa Casa de Miseriocórdia, de Porto Alegre, José Camargo, classificou a recuperação do paciente de "extraordinária".
Henrique e seus pais, Amadeo, de 54 anos, e Márcia, de 45, falaram hoje sobre as cirurgias na UTI do hospital São Francisco, do complexo da Santa Casa . Foi o primeiro transplante de pulmão com doadores vivos no Brasil. Nos Estados Unidos, cerca de 70 cirurgias do gênero já foram feitas desde 1991, quando o médico Vaughn Starnes, que desenvolveu a técnica, operou o primeiro paciente.
Doação - Os pais do menino fizeram uma defesa comovida da doação de órgãos. Amadeo pediu às pessoas que tenham um parente com morte cerebral que permitam a retirada de órgãos para doação. O casal falou de sua satisfação com a possibilidade garantir a vida ao filho. Se não recebesse partes dos pulmões paterno e materno, Henrique não teria mais de seis meses de vida.
A assessoria do São Francisco informou que ele deverá ficar mais uma semana na UTI. Depois, passará para o quarto. Acredita-se que, se tudo correr bem, a alta acontecerá em um mês. Cerca de 40 pessoas participaram das três cirurgias quase simultâneas. A mãe foi operada para retirada do lobo inferior do pulmão esquerdo. Trinta minutos depois, em outra sala, o pai foi submetido à mesma cirurgia para retirada de parte do pulmão direito. Tão logo foi retirada parte do pulmão da mãe começou o transplante no menino. O formato e o volume dos dois pedaços equivalem ao de um pulmão de criança. As três intervenções demoraram mais de sete horas.
De acordo com Camargo, o transplante de pulmão intervivos, com os pais ou irmãos mais velhos servindo de doadores para filhos ou irmãos mais moços, oferece novas chances de sobrevivência para as crianças doentes. Dois dos problemas a serem superados são a complexidade das cirurgias, que devem estar sincronizadas, e os aspectos emocionais de operar uma pessoa saudável, o doador, para remover-lhe parte de um órgão sadio.
Amadeo, pequeno empresário de Curitiba/PR, e Márcia, dona de casa, terão uma vida normal, segundo os médicos, com 80% da capacidade respiratória. O fato de os órgãos doados serem provenientes dos próprios pais favorece o transplantado, tornando o risco de rejeição mínimo.


