Menina de 7 meses carrega cartaz contra OMC
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sábado, 15 de abril de 2000
Por Mônica Yanakiew 
Washington, 16 (AE) - Sem qualquer proteção, a não ser um chapéu e uma camada de filtro solar, Samantha Anderson driblou as barreiras policiais e juntou-se à multidão de manifestantes, que, desde a madrugada de hoje, ocupou as ruas de Washington para protestar contra a globalização. Um minúsculo cartaz, grudado na barriga, condenava a Organização Mundial do Comércio (OMC) - uma instituição que Samantha, de apenas 7,5 meses, nem sabe que existe e cujo nome tampouco pode pronunciar.
O pai de Samantha, Eric, falou por ela. "Estamos aqui porque sempre fomos de esquerda", explicou. Tanto ele como a mulher Laura militaram na década de 80 pelo desarmamento nuclear. Nada mais lógico que levar a filha no colo para participar de um protesto contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird), num domingo ensolarado.
"Não acho que vá haver violência e, se houver, saberemos manter distância", disse Eric, enquanto caminhava para o gramado entre a Casa Branca e o obelisco de Washington, onde milhares de manifestantes protestavam pacificamente, com a permissão da polícia. A poucos quarteirões, no cruzamento da Rua 15 com a Avenida Pennsylvania, o clima era outro.
Ao lado do prédio do Tesouro americano, uma mancha de sangue, coberta por um punhado de flores, marcava o lugar onde, minutos antes, a polícia enfrentara-se com cerca de 50 manifestantes. Eles estavam sentados no chão, bloqueando a passagem.
Os policiais queriam abrir um corredor para deixar passar os ônibus, transportando as delegações oficiais para uma reunião de ministros nas sedes do FMI e do Bird. Quando encontraram o caminho bloqueado, arrastaram os manifestantes pelo braço e bateram em alguns com cassetetes. O manifestante Chad Kister, de 29 anos, foi ferido e posto numa ambulância.
Esse foi o incidente mais violento, numa manifestação que vinha sendo organizada há meses e pretendia pôr 10 mil manifestantes nas ruas de Washington, hoje e amanhã (17). A intenção dos participantes da Mobilização pela Justiça Social - uma coalizão de 400 sindicatos, organizações de defesa dos direitos humanos e animais e grupos ecológicos e estudantis - era cercar as sedes do FMI e do Bird.
A idéia era repetir os acontecimentos de novembro, em Seattle, quando milhares de manifestantes tomaram conta das ruas para denunciar a OMC. Eles conseguiram cercar o prédio, onde ministros representando quase duas centenas de países pretendiam lançar uma nova rodada de negociações para liberalizar o comércio mundial.
Muitos deles tiveram a entrada bloqueada e o encontro foi um fracasso. Em Seattle, as manifestações deixaram um saldo de 600 presos. Mas, em Washington, a polícia estava mais preparada. Prendeu o mesmo número de manifestantes ontem (15) à noite, faltando horas para o início dos protestos.
"Em Seattle, a polícia perdeu o controle e reagiu de forma violenta, estimulando mais violência", explicou Celia Alario, uma das 50 pessoas que a Mobilização pela Justiça Social pôs nas ruas para manter contato com a imprensa e informar os últimos acontecimentos. "Aqui, a polícia está comportando-se muito melhor; pelo menos é o que eu achava até acontecer o enfrentamento perto do Tesouro", acrescentou.
Houve outros momentos tensos, nos quais a polícia usou gás lacrimogêneo e ameaçou os manifestantes. Mas os episódios de violência foram poucos. O chefe da Polícia de Washington, Charles Ramsey, ajudou a manter a calma, dialogando com os jovens e contando que ele também protestou na década de 60.
Um dos manifestantes, que estava participando de uma corrente humana, queixou-se de uma mordida que levou: não foi da polícia, nem de um funcionário do FMI e do Bird. "Uma mulher queria entrar num prédio e não podia passar porque não deixávamos ninguem passar, nem a imprensa", explicou a estudante Mary Robinson, que participava da corrente humana na Rua 18, próximo à sede das duas instituições. "De repente, ela perdeu a paciência, mordeu o braço do rapaz que estava barrando seu caminho e passou", contou.
Outra mulher, de top less, marcou no peito a frase: "Faça Amor, Não Faça Dívida." Parecia uma cena de Woodstock, da década de 60. No gramado, onde estava sendo realizado o protesto permitido pela polícia, mulheres fantasiadas de tartarugas pregavam a defesa da natureza. Um grupo ouvia cantos e protestos, à sombra de um enorme cavalo de Troía de Papelão.
"É o símbolo do FMI", explicou Paul Phillips. "O Fundo oferece apoio financeiro aos países pobres, como se fosse amigo, e depois mata os povos de fome, cobrando o pagamento da divida e impondo planos de ajuste estrutural", concluiu.


