Buenos Aires, 27 (AE) - O presidente Carlos Menem afirmou que pretende ver a Argentina dolarizada ainda em seu governo, que termina dia 10 dezembro. "Quero ir embora do governo com a economia dolarizada", disse a seu trio de principais assessores: o chefe de gabinete, Jorge Rodríguez, o secretário-geral da Presidência, Alberto Kohan, e o ministro do Interior, Carlos Corach.
A conversa foi revelada pelo jornal ámbito Financiero. Segundo a publicação, Menem teria sido categórico sobre a adoção da moeda norte-americana e a eliminação do peso: "Temos de dolarizar, ainda que seja unilateralmente, com o apoio dos Estados Unidos."
Segundo analistas, a manobra de Menem tem dois objetivos: colocar-se como bastião da estabilidade argentina e criar o clima de que quem criticar a dolarização é um potencial desvalorizador.
A proposta de "dolarizar já" deixa o ministro da Economia, Roque Fernández, e no secretário de Financiamento, Miguel Kiguel
receosos. Embora aprovem a idéia, preferem deixá-la a cargo do próximo governo. Do lado de Menem está o presidente do Banco Central argentino, Pedro Pou, que há poucas semanas causou polêmica ao afirmar que "a Argentina não possui moeda" e cunhou outra impactante analogia para se referir às hipotéticas vantagens de eliminar o peso como forma de terminar com os riscos cambiais: "Se matarmos o cachorro, liquidamos a raiva."
Pou já tem o projeto de dolarização pronto para tirá-lo da gaveta em caso de emergência. Nesse caso extremo, a dolarização passaria por cima do Congresso e seria adotada com um decreto presidencial.
Pou sustenta que, com a dolarização, Estado, empresas e pessoas físicas deixariam de ser pagas em pesos e fazer dívidas em dólares, que é o mais frequente. Elas passariam a receber em dólares e comprar em dólares. Dessa forma, ao receber o pagamento em dólares e endividar-se em dólares o risco cambial ficaria eliminado. A medida, segundo Pou, traria a automática redução das taxas de juros e a economia argentina seria reaquecida.
Os opositores da dolarização sustentam que a troca de moedas não resolverá dois problemas fundamentais do país: o desequilíbrio das contas públicas e a cada vez menor competitividade dos produtos argentinos.
Deixar de usar notas com a efígie do presidente Julio Roca para passar às notas onde aparece George Washington também agrada o principal guru do centro financeiro de Buenos Aires, Miguel ángel Broda, que sustenta que com a dolarização o risco cambial desapareceria e os investidores locais e estrangeiros sentiriam plena segurança para investir na Argentina.
O economista afirmou que apóia a proposta de dolarização porque considera que os políticos que chegarem ao poder no próximo governo "dificilmente tomarão as medidas necessárias para diminuir os custos de produção e manter, doa a quem doer um equilíbrio fiscal".
Broda admitiu que a dolarização é um projeto que leva tempo e Menem "está simplesmente fazendo uma utilização política do tema para sair de uma crise conjuntural".
Diversos analistas concordaram que a dolarização implica riscos para o Mercosul: complicaria a convergência das macroeconomias e liquidaria a possibilidade de criar uma moeda única. Além disso, causaria problemas estratégicos na aproximação do Mercosul com a União Européia.

mockup