Buenos Aires, 11 (AE) - Terça-feira à noite: um momento de glória para o presidente Carlos Menem. O príncipe Charles estava em Buenos Aires em visita oficial. A reunião do príncipe com Menem era histórica: ele tornava-se assim o primeiro presidente argentino a encontrar-se com o herdeiro do trono britânico desde a Guerra das Malvinas. Em uma cena que poderá ser lembrada como uma analogia ao baile da Ilha Fiscal, Charles de Windsor dançou o tango com a filha de Menem, Zulemita. Mas a glória de Menem era apenas aparente.
Fora dali, no entanto, no mesmo instante, preparava-se uma ofensiva que abalaria a sustentação política do presidente de uma forma cujos efeitos ainda estão sendo avaliados: no dia seguinte, deputados da oposição e do próprio partido do governo, o Justicialista (também conhecido por "peronista"), aprovaram uma resolução que convoca os funcionários do governo a respeitar a Constituição, que no artigo 90 proíbe a segunda reeleição do presidente.
Desde que em 1988 foi eleito candidato para disputar a presidência do país, Menem nunca se havia visto tão desprovido de apoio dentro do partido.
O poder começou a escorrer das mãos de Menem no momento em que 60% dos parlamentares votaram contra a possibilidade de reeleição de Menem. Do total de 257 deputados do Congresso Nacional, 159 votaram a favor da proibição. Do total dos 122 deputados peronistas, 46 (37,7%) votaram junto com a coalizão de oposição Aliança UCR- Frepaso, o partido Ação pela República (do ex-ministro Domingo Cavallo) e outros partidos provinciais. A votação era inédita, já que o movimento contra a segunda reeleição de Menem havia conseguido reunir do mesmo lado tradicionais inimigos.
Os deputados também decidiram pelo início do julgamento político contra o juiz federal Ricardo Bustos Fierro, que semanas atrás deu um parecer favorável à reeleição de Menem, permitindo também que ele se apresentasse como pré-candidato pelo seu partido à presidência do país. O secretário-geral da presidência, Alberto Kohan, lamentou a dissidência de parte dos deputados peronistas, à qual definiu como "um fato sem precedentes".
A dissidência dos deputados peronistas reforça a posição do pré- candidato mais forte que o partido tem até o momento: o governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que posicionou-se como o inimigo interno de Menem. Apesar dos rumores de um possível racha no peronismo, o vice-presidente Carlos Ruckauf (que afastou-se de Menem e aproximou-se de Duhalde) afirmou que isso é "improvável".
Duhalde continua disparando contra o lado "menemista", e afirma que poderá fazer um plebiscito sobre a segunda reeleição em sua província, onde concentram-se 40% do eleitorado do país, como forma de liquidar as intenções do presidente.
Como se o revés no Congresso fosse pouco, Menem também viu debandarem os 14 governadores peronistas, que até há pouco tempo eram seus mais fiéis seguidores. Acreditando que ainda dominava a grande maioria deles, os convocou para uma reunião na residência presidencial de Olivos. Foram nove dos 14. Mas mesmo os que participaram da reunião colocaram objeções à segunda reeleição.
O governador de San Luis, Adolfo Rodríguez Sáa, pré-candidato à presidência do país, saiu da reunião anunciando que se reuniria com Duhalde.
Menem disse aos governadores que no máximo daqui a duas semanas anunciará sua decisão definitiva sobre sua candidatura. Analistas políticos especulam que a definição poderia ocorrer no domingo 21, quando serão realizadas as eleições para o governo da província de Catamarca.
Estas eleições estão sendo encaradas como uma prévia para as eleições presidenciais de outubro. Se o candidato do peronismo, que é grande amigo de Menem, vencer, poderia ser o cenário ideal para seu lançamento. Se o peronismo perder, Menem poderá anunciar que desiste de tentar permanecer no poder até o ano 2003.

mockup