Menem pede emendas para "terminar as reformas do país" DE ARIEL PALáCIOS, Especial para a AGÒNCIA ESTADO
Buenos Aires, 01 (AE) - O presidente Carlos Menem realizou hoje (01) ao meio-dia o discurso da abertura do ano parlamentar no Congresso argentino. Este foi o último discurso de Menem no Parlamento, já que o presidente deixará o poder em dezembro deste ano, após dez anos de governo.
O tom era de despedida, mas nas entrelinhas, o presidente Menem deixou claro que não pretende deixar tão cedo o "sillón de Rivadavia", como é conhecida a cadeira presidencial. Ao longo de todo o discurso, Menem falou sobre "nossas prioridades para os próximos dez anos", como se fosse se manter no poder por todo este tempo.
No discurso, o presidente tentou posicionar-se como o único protagonista possível para as mudanças que o país ainda precisaria. Entre os objetivos que anunciou, no estilo de uma plataforma de governo, está o de "uma nova década de reformas estruturais, que terminará com a comemoração do bicentenário da Independência, no ano 2010".
O discurso de Menem coincidiu com um acordo de trégua, realizado este fim de semana, com seu maior oponente dentro do governista Partido Justicialista: o governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que é pré-candidato do partido à sua sucessão.
A convenção interna do partido que definiria o candidato à presidência foi adiada de abril para julho, o que dará mais tempo aos assessores de Menem para conseguir o sinal verde para sua segunda reeleição.
Menem indicou o caminho para poder manter-se no poder por mais tempo: reformar a Constituição por meio de emendas constitucionais. No discurso ao Parlamento, Menem sustentou a mesma idéia - que havia defendido no fim de semana - embora de forma elíptica: "será necessário que consensos incorporem à Carta Magna elementos que permitam consolidar as mudanças dos desafios do mundo. Nunca mais queremos intolerâncias que brequem as mudanças necessárias"
Posteriormente, na saída do plenário, explicou para quando serão as mudanças: "no futuro, não agora". No entanto, apesar das relativizações, o recado presidencial já estava dado: Menem está lutando para ser reeleito pela segunda vez, fato que a atual Constituição proibe.
Menem foi eleito em 1989 e reeleito em 1995. No entanto, para ser reeleito pela segunda vez, o presidente precisa de uma reforma na Constituição, ou um parecer favorável na Corte Suprema.
Nos últimos dias, o próprio Menem, e uma multidão de políticos menemistas pareciam ter encontrado a fórmula ideal para conseguir a possibilidade da segunda reeleição, através da modificação da Constituição: em vez de uma reforma da Carta Magna, realizar emendas.
Menem defendeu esta modalidade, e elogiou os legisladores norte- americanos que ao longo de 200 anos de história, "conseguiram modernizar a Constituição sem complicações e traumas". Com emendas, o governo Menem poderia permitir a alteração constitucional através de uma maioria especial, com a qual poderia prescindir dos votos da oposição. Como pano-de-fundo para seu discurso, na praça do Congresso uma multidão agitava bandeiras e cartazes pedindo a segunda reeleição com o slogan "Menem 99".
Durante sua "despedida" ao Congresso, o presidente Menem fez um extenso elogio de sua gestão, que apresentou como "renovadora do país".
Menem indicou como fundamentais o fim da hiperinflação, o aumento do PIB, o crescimento do comércio e a realização das privatizações - no início de seu governo as estatais controlavam mais de 60% da economia.
Além disso, Menem afirmou que graças a seu governo, o país possui "a renda per capita mais alta da América Latina e de muitas partes do mundo". Menem também destacou que a Argentina "está cavalgando sobre os processos de globalização", e lembrou que ele conseguiu fazer do país um aliado extra-OTAN.
No final do discurso, Menem reforçou a sensação de que desejava ficar mais tempo no poder: "tenho vontade de fazer muito do que ainda falta", disse, e concluiu "o peronismo não tem nostalgia do que precisa ser feito, mas vontade daquilo que precisa ser feito". Apesar disso, ao sair do Congresso, Menem disse à imprensa que este era seu último mandato, e que não reformaria a Constituição.
O Brasil também foi um dos principais temas que Menem desenvolveu em seu discurso: "os problemas temporários provocados pela crise internacional não obscurecem nosso destino do Mercosul. As dificuldades com o Brasil e os problemas do Mercosul solucionam-se com mais Mercosul".
De acordo com Menem, "temos que batalhar contra os inimigos da integração". O presidente argentino sustentou que "os problemas com o Brasil não podem ser resolvidos com medidas contra o Brasil. Eles serão solucionados estendendo nossa mão solidária ao amigo e irmão".
Menem também referiu-se ao reestabelecimento das relações com a Grã-Bretanha como "sólido o suficiente para recuperar as Ilhas Malvinas". O presidente também recordou que durante seu mandato terminou seus últimos conflitos de fronteiras com o Chile, "o que torna superado todo obstáculo que tínhamos para a integração. Isso possibilita ao Mercosul uma projeção bioceânica, com acesso para o Pacífico".





