Montevidéu, 06 (AE) - O governo brasileiro derrubou a pretensão argentina de compensações pela desvalorização do real. Esta conquista o presidente Carlos Menem ficará devendo ao furioso empresariado de seu país. Em contrapartida, o governo argentino mantém a salvaguarda contra a importação de têxteis brasileiros - medida sujeita a negociação bilateral no Mercosul e a contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC).
A diplomacia brasileira abriu uma brecha para enfrentar o problema dos têxteis no ambito regional. Além disso, o chanceler Luiz Felipe Lampreia deu como certa, numa entrevista ao lado de seus colegas do Mercosul, uma vitória brasileira, se houver um julgamento na OMC. Mas qualquer resultado só vai surgir quando o presidente argentino estiver encerrando seu mandato. Até lá, pelo menos, a barreira deverá manter-se.
Na conta de ganhos e perdas desta reunião do Mercosul, depois de dois dias de duras negociações entre argentinos e brasileiros, esses foram os principais resultados de curto prazo. Na discussáo mais dura de hoje, foi derrubada a proposta argentina de um regime de "medidas especiais de caráter transitório", destinadas a neutralizar os efeitos de de alterações "bruscas e substanciais dos preços relativos". Em linguagem comum, a idéia era permitir medidas protecionistas para compensar os efeitos de mudanças cambiais. Aceitar essa proposta, segundo o chanceler Lampreia, seria abandonar o regime de uma área de livre comércio e retornar a um sistema de comércio administrado. Os argentinos deveriam escolher, disse Lampreia: ou se manteriam os compromissos do Mercosul e se avançaria para uma união aduaneira perfeita - a atual é incompleta - , ou se voltaria a um sistema de intervenção. A proposta foi abandonada.
As demais decisões, burocráticas na aparência, também resultam de tensões políticas importantes. Os ministros dos quatro países - Paraguai e Uruguai são os outros dois - resolveram acionar dois grupos de trabalho, para discutir a harmonização de políticas econômicas e para examinar a evolução do comércio entre os sócios - de fato, para analisar os efeitos da mudança cambial brasileira.
O Mercosul sobrevive, apesar das tensões entre os sócios de maior peso econômico, e seu sistema institucional se fortalece com essas decisões. O chanceler do Uruguai, Didier Opertti, apresentou-as numa entrevista conjunta iniciada com uma hora e meia de atraso, às 16h30, por causa das divergências entre argentinos e brasileiros.
A convergência de políticas econômicas é um tema frequente do governo argentino, principalmente por causa da diferença entre o sistema cambial do peso, amarrado ao dólar, e o do real, flutuante desde janeiro. A harmonização de políticas é um processo amplo, envolve metas fiscais e monetárias e deve consumir vários anos. Cuidará do assunto um grupo vice-ministerial, com poder para analisar os temas técnica e politicamente e para propor medidas. As decisões, de toda forma, caberão ao Conselho de Ministros do Mercosul.
O outro grupo, de acompanhamento de conjuntura, deverá examinar a evolução do comércio, tecnicamente, e, se for o caso, propor medidas políticas - mas a idéia de barreiras compensatórias foi afastada.
A delegação ministerial argentina, formada pelo chanceler Guido di Tella, pelo ministro da Economia, Roque Fernández, e pelo secretário de Indústria e Comércio, Alietto Guagagni, veio com a disposição de lutar pelas compensações - uma promessa feita aos industriais. No encontro de com representantes da indústria, o ministro Fernández teria previsto
segundo notícia do jornal "El Clarín", uma nova desvalorização cambial no Brasil, por causa do déficit fiscal. Esse é, teria dito o ministro, o verdadeiro problema. Na entrevista coletiva o ministro Pedro Malan recusou-se a comentar o rumor, passando a questão ao colega argentino. "Quero deixar perfeitamente claro", disse Fernández, "que não disse que as autoridades brasileiras pensem em desvalorizar." Desde janeiro, acrescentou, o câmbio brasileiro é determinado pelo mercado. Ficou uma dúvida, no entanto: teria Roque Fernández previsto uma desvalorização "natural", isto é, resultante de pressões do mercado? Essa pergunta lhe foi feita na saída e ele se afastou, na confusão da sala, sem esclarecer.
Todos os ministros, incluído o argentino Guido di Tella, apresentaram os resultados da reunião como positivos para o Mercosul. Não se deve, disse Malan, esperar de todo encontro decisões precisas e de aplicação imediata. O Mercosul é um processo e "la nave va", concluiu.

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