Menem faz amanhã 24.ª viagem ao Brasil
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terça-feira, 12 de outubro de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 13 (AE) - Ao chegar amanhã (14) ao Brasil, o presidente da Argentina, Carlos Menem, estará realizando a vigésima quarta viagem ao País como chefe do Executivo argentino. Nestes dez anos de governo, o principal parceiro comercial da Argentina terá sido o lugar mais visitado por Menem.
Desde a posse, em julho de 1989, o presidente argentino conviveu com quatro presidentes brasileiros; José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Analistas consideram que a melhor relação pessoal de Menem foi com FHC, enquanto que a pior foi com Itamar.
Não só o Brasil teve a atenção de Menem, mas o Cone Sul de forma geral: foram 70 viagens ao Paraguai, Uruguai, Chile, Bolívia e Brasil, de um total de 209 viagens a todo o planeta. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com 21 viagens. Estas visitas demonstraram que os EUA foram outro grande objetivo da política externa argentina na última década. Com esse país, Menem iniciou um inédito alinhamento automático, além de ter cultivado um relacionamento pessoal com o ex-presidente George Bush (com o qual partilhava longas horas de jogo de tênis) e uma procura de entendimento com o presidente Bill Clinton, do qual obteve a associação extra-Otan.
Muitas das visitas ao Brasil deveram-se às crises surgidas entre os dois países, resolvidas às pressas pela "diplomacia presidencial", que consiste nas reuniões de cúpula eventualmente apressadas entre os dois presidentes para terminar com situações de tensão. Em declarações aos correspondentes brasileiros em Buenos Aires, poucas horas antes de viajar a Brasília, Menem disse que esse modus operandi estaria no fim - "Na medida que institucionalizarmos o Mercosul".
No entanto, na auto-biografia lançada recentemente, Menem faz uma apologia da diplomacia presidencial e comenta como ele e FHC eram "os avalistas do Mercosul" quando os diplomatas e economistas dos dois governos não conseguiam resolver os problemas. Segundo o presidente argentino, "a força da vontade política deve ser exercida energicamente quando os grandes projetos se complicam em cenários técnicos".
O analista político Oscar Raúl Cardoso disse que, "independentemente dos futuros presidentes, esta política não pode continuar porque é um método de extrema precariedade". "Os problemas são de tal envergadura, que precisam outros mecanismos de solução."
Raúl Cardoso sustenta que Menem teve um grande papel na consolidação do Mercosul: "Ao longo destes dez anos, manteve o desenvolvimento do bloco comercial como uma política de Estado." No entanto, o analista tampouco poupa críticas ao presidente: "Menem não deu um impulso ao Mercosul para que avançasse mais além do lado estritamente comercial, e entrasse profundamente no lado político." Raúl Cardoso considera que "Menem não é a melhor classe de sócio que um país como o Brasil poderia ter" e cita como exemplo as decisões de alinhamento automático com os EUA, "sobre as quais o Brasil tomou conhecimento através dos jornais".
Com os presidentes brasileiros com os quais se relacionou nesta década de poder, Raúl Cardoso afirma que Menem "tentou se levar bem com Collor". No entanto, a relação não deu certo: "Eram demasiadamente parecidos", considera. O analista afirma que as relações com Itamar tiveram momentos de tensão, "pois o ex-presidente brasileiro é menos diplomático que FHC".
Com FHC, Raúl Cardoso sustenta que a relação é boa. "Embora, para mim, isso seja um mistério, já que não vejo pontos em comum entre eles." A explicação estaria "nas relações de trabalho entre os dois, mais do que em uma base de amizade". Raúl Cardoso considera que houve dificuldades entre os dois países, mas não atingiram a relação pessoal, "pois foram bem manejadas por ambos os corpos diplomáticos".
No entanto, o analista suspeita que Menem guardará uma amargura dos últimos meses de convívio com FHC: "Quando, em agosto, ocorreu a crise causada pela decisão argentina de aplicar salvaguardas a produtos brasileiros, o Brasil reagiu intensamente, e Menem teve de fazer uma escala em Brasília às pressas, voltando de uma viagem aos EUA; acho que Menem sentiu isso como uma humilhação política, e temo que não a esquecerá."


