Buenos Aires, 21 (AE) - O presidente Carlos Menem, de 69 anos e visivelmente mais envelhecido, entregará o poder com um dos índices de popularidade mais baixos em seus mais de dez anos de mandato e com a taxa de desemprego entre as mais altas da última década. Depois de ter atingido recorde de aceitação de 86% em 1989, quando recebeu uma Argentina praticamente destruída pela inflação e pela recessão, Menem entregará o cargo no dia 10 de dezembro com um índice de popularidade de apenas 28% e com o desemprego beirando os 15% da população economicamente ativa.
Apesar desses índices que acabam arranhando a sua imagem, Menem não se cansa de explicar que foi ele quem transformou a Argentina de um país empobrecido que vivia assustado com os militares em uma nação moderna e com uma democracia consolidada. Nem mesmo com a aproximação das eleições, da qual está fora apenas por não ter conseguido mudar (de novo) a Constituição, Menem deixou de lembrar que voltará em 2003. Cartazes espalhados em Buenos Aires, principalmente nas periferias da cidade, clamam por sua volta daqui a três anos. "É uma falta de respeito para o Justicialismo que busca uma vitória neste domingo", lamenta Eduardo Duhalde, candidato à presidência do país pelo partido de Menem.
Durante a década na qual Menem ficou à frente do governo argentino, superando o recorde de pouco mais de nove anos do lendário Juan Domingo Perón, o desemprego praticamente dobrou, passando de 7,1%, em 1989, para 14,5%. Institutos independentes afirmam, entretanto, que o desemprego está entre 16% e 18%. Em maio de 1994, sete meses antes da crise do México, a desocupação já havia saltado para 10,7% e, em 1995, em consequência dos efeitos da crise do tequila, a desocupação chegou a 18,4%, o índice mais alto da era Menem.
É verdade que o seu governo reduziu o tamanho do Estado com um amplo programa de privatizações e o transformou em uma máquina mais moderna. Mas também é certo que aumentou a riqueza de alguns e fez crescer a diferença entre os mais ricos e os mais pobres. É verdade também que Menem trouxe alguns bilhões de dólares (US$ 50 bilhões, segundo algumas estimativas não oficiais) de investidores estrangeiros para a Argentina, e que, por alguns anos, esta nação transformou-se em um modelo de reforma econômica para a região. Mas também ficou claro que Menem não vai cumprir com a promessa de terminar seu mandato com uma taxa de desemprego de apenas um dígito e com a igualdade social que prometera há mais de dez anos.
O problema do emprego, no entanto, não se restringe apenas aos desocupados, mas também aos subempregados. Hoje são quase 30% da força de trabalho do país que enfrentam esse problema. A última pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) antes de finalizar este governo - a outra será realizada este mês e divulgada somente em dezembro - mostra 1,92 milhão de desocupados e outros 1,96 milhão de pessoas que trabalham menos de 35 horas semanais, embora quisessem trabalhar mais para viver. Isso significa que o problema da desocupação na Argentina atinge 4 milhões de pessoas.
Apenas neste ano, 221 mil pessoas ficaram desempregadas e outras 209 mil trabalham menos do necessário. A situação não ficou pior porque, nos últimos meses, cerca de 100 mil pessoas pararam de buscar trabalho porque não têm mais a expectativa de encontrar um emprego e porque o número de trabalhadores contratados por meio de programas públicos e os empregos transitórios cresceu ligeiramente. O mais grave nesse quadro social é que, nos últimos 12 meses, praticamente não foram criados novos postos de trabalho, e, nos próximos 12 meses, também o desemprego não deve melhorar.
O economista José Luis Machinea, que está muito próximo a experimentar o traje de ministro de Economia, declarou que antes de outubro de 2000 as pesquisas de desemprego não deverão mostrar uma diminuição do problema. Machinea prefere não alimentar falsas expectativas em relação a um dos problemas mais graves que vive a Argentina. De acordo com ele, mesmo saindo da recessão, a Argentina terá de trabalhar muito para ganhar competitividade. "Só a partir desse momento será possível reduzir o desemprego a uma razão de 1,5% ao ano", afirmou durante um programa na televisão.
Mas por que Menem gostaria de voltar em 2003 se a rejeição de sua imagem é tão alta? Ele mesmo responde: "Para aprofundar o que foi feito nos últimos 10 anos." De acordo com o presidente argentino, não há nada melhor do que voltar a conduzir um país com o poder obtido graças à vontade do povo. "Nada es perfecto, pero todo es perfectível", resume de forma irônica. É por causa dessa fome de poder que Menem vai trabalhar até a última hora do seu último dia de mandato.
Miguel Angel Broda, um dos economistas mais conceituados do país, declarou recentemente à revista "Newsweek" que existe uma linha divisória na história argentina. "Uma antes de Menem e, a outra, depois dele". Nos últimos dez anos e meio, Carlos Menem desafiou seu partido (Justicialista), ignorou os sindicatos e testou a capacidade do Congresso e os Tribunais de Justiça baixando mais decretos do que qualquer outro presidente do país. Sentindo-se traído por não ter conseguido apoio para poder concorrer a um terceiro mandato, Menem abandonou o candidato de seu partido, Eduardo Duhalde, para transformar-se, a partir do dia 11 de dezembro, na maior força de oposição da Aliança, que deve vencer as eleições deste domingo. Seja como for, escreve a "Newsweek", a Argentina jamais será a mesma. "Menem deixou a sua marca".
De acordo com dados do Indec, cerca de 1,4 milhão (74%) de pessoas da Capital e da Grande Buenos Aires que têm emprego estão em busca de um segundo porque o salário que ganham não é suficiente para satisfazer as suas necessidades. Ou seja, não são apenas os desocupados que enchem as filas das ruas centrais de Buenos Aires em busca de um outro trabalho.
Somando aos 850 mil desempregados das duas regiões, o número chega a 2,2 milhões de pessoas procurando emprego. Nunca houve como hoje tantos concorrentes para uma vaga. Desses 1,4 milhão de ocupados em busca de outro emprego, mais de 800 mil são homens. No início do Plano de Conversibilidade, em 19991, eram apenas 500 mil as pessoas que buscavam um segundo emprego. Isso significa que, em oito anos, o número crescem em 900 mil pessoas em busca de novos rendimentos para manter as suas necessidades. Esses números mostram o alto grau de insatisfação dos trabalhadores na Grande Buenos Aires.
Segundo o Indec, a metade da população empregada ganha menos de 500 pesos (US$ 500). Mas o custo de uma cesta familiar básica é de cerca de US$ 1.000. A informalidade também aumentou no país. Desde a entrada em vigor do Plano de Conversibilidade, em abril de 1991, ele subiu de 27,6% para 37%. De acordo com os dados do Indec, os empregados não declarados ou informais somam 3,6 milhões de pessoas. Isso significa que a informalidade na Argentina chega a 38%. O aumento de trabalho informal, entretanto, contrasta com a queda dos custos trabalhistas das empresas, já que, desde a conversibilidade, esse custo teria caído cerca de 30% em função das sucessivas reduções dos aportes patronais, do barateamento do seguro de acidentes de trabalho, da implementação de convênios coletivos mais flexíveis e da própria redução do salário.

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