Menem deixa Argentina sem recursos para sair da recessão Do enviado especial Wladimir Goitia
Buenos Aires, 20 (AE) - Independentemente do resultado das eleições de domingo, o próximo governo que vai assumir no dia 10 de dezembro terá menos recursos do que o previsto e necessário para tentar tirar a economia argentina da recessão no primeiro trimestre do próximo ano. A equipe econômica do presidente Carlos Menem afirma estar deixando para o seu sucessor uma espécie de "colchão financeiro" de no mínimo US$ 3 bilhões para enfrentar as necessidades dos primeiros 90 dias de governo.
Entretanto, esse volume de recursos parece não ser o que os economistas da Aliança de Oposição - do já quase eleito Fernando De la Rúa -- vêm contabilizando. De acordo com técnicos da equipe econômica do futuro ministro de Economia, José Luis Machinea, o governo Menem fez cálculos com base em um déficit fiscal de US$ 5,1 bilhões, conforme acertado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A Aliança acredita, entretanto, que o vermelho nas contas do governo até dezembro deste ano será de no mínimo U$ 5,6 bilhões. Ou seja, o suposto "colchão financeiro" ficará reduzido em pelo menos US$ 500 milhões, recursos que terão de ser utilizados para cobrir o rombo das contas públicas. Estimativas mais pessimistas mostram um rombo ainda maior, aproximando-se dos US$ 6 bilhões, já que a arrecadação fiscal no decorrer do ano está US$ 1,4 bilhão menor à prevista inicialmente.
Para piorar o quadro, o próximo governo vai precisar mais US$ 2,6 bilhões para o primeiro trimestre de 2000, recursos que serão destinados para amortizar parte da dívida externa e ao qual terá de ser somado ainda um déficit fiscal calculado em não menos de US$ 4 bilhões. Segundo os economistas da Aliança, isso significa que, se o tal "colchão financeiro" prometido existir mesmo, ele servirá somente para cobrir rombos de apenas dois meses do novo milênio.
Ontem à noite, o candidato a vice-presidente da Aliança de Oposição, Chacho Alvarez, afirmou, durante o último comício no interior do país, que Menem deixou o Estado completamente endividado e sem recursos. Mas o pessimismo dos economistas do futuro governo - caso De la Rúa venha mesmo confirmar seu favoritismo nas pesquisas -- não param aí. Se os cálculos do atual ministro de Economia, Roque Fernández, estiverem mesmo certos, as necessidades de financiamento para tocar o próximo ano chegam a US$ 16,9 bilhões.
É com base nessas cifras que a equipe de economistas de Machinea trabalha. Eles acreditam que, para o governo ficar aliviado de pressões no próximo ano, serão necessários cerca de US$ 20 bilhões. Para os economistas do futuro ministro, é necessário incluir aos números de Fernández o déficit fiscal e a eventual alta das taxas de juros sobre a dívida externa do país, já que o presidente Menem deve terminar seu segundo mandato com um déficit fiscal de US$ 5,6 bilhões e uma dívida pública de US$ 120 bilhões, o dobro do que existia em 1989, quando assumiu poder.
Mas de onde virá tanto dinheiro? Uma boa parte, praticamente a metade, do Fundo Monetário Internacional. Durante a última reunião anual, em Washington, tanto o FMI como o Banco Mundial (Bird) se comprometeram a liberar os recursos suficientes para que a Argentina possa enfrentar seus problemas de caixa. Mas os US$ 10 bilhões não serão suficientes. Por isso, cogita-se captar logo no começo do próximo ano pelo menos US$ 1 5 bilhão por meio de lançamento de bônus, com aval do Bird e com taxas mais baixas do que vêm pagando o atual governo.
O otimismo de alguns faz falar em taxas de 9% ao ano, ou seja, três pontos abaixo das atuais. E, antes de terminar a era Menem, o ministro Roque Fernández espera captar pelo menos mais US$ 800 milhões no mercado internacional.
Contar com dinheiro de futuras privatizações, nem pensar. Hoje restam apenas o que os argentinos chamam de "bijouterias da vovó".
Se o futuro governo juntasse tudo que ainda tem por vender, os recursos não passariam de US$ 1,2 bilhão. Isso é o que restou depois de 10 anos e meio da era Menem, cujo governo arrecadou US$ 36 bilhões em privatizações. De acordo com dados oficiais, o governo argentino detém ainda algumas ações de empresas que já estão nas mãos do setor privado. A maior parte dessa pequena participação está em empresas setor ferroviário e de companhias de eletricidade.
O grosso dos recursos viriam mesmo de uma eventual venda do Banco Hipotecário, estimada entre US$ 900 milhões e US$ 1 bilhão. A venda de ações renderiam apenas entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões. O maior problema, entretanto, é que a metade dos recursos das futuras privatizações não poderá ser utilizada pelo próximo governo.
Com a entrada em vigor da Lei de Conversibilidade Fiscal - rebatizada para Lei de Responsabilidade Fiscal -, metade dos recursos das privatizações tem de ir para um fundo para cobrir eventuais diferenças nas metas fiscais estabelecidas pela própria lei. Ou seja, se as últimas vendas do que ainda resta chegassem mesmo a US$ 1,2 bilhão, a futura administração poderá disponibilizar apenas da metade desses recursos.
Embora restem outros bens que poderiam ser privatizados, como o Banco de la Nación (uma espécie de Banco do Brasil), centrais nucleares e alguns imóveis e terrenos, nada será suficiente para dar tranquilidade ao futuro governo. Até porque, tanto De la Rúa como Eduardo Duhalde se comprometeram a não vender o La Nación. Podem até transformá-lo em uma sociedade anônima, com participação de capital privado, conforme compromisso assinado com o FMI, mas não vendê-lo.





