Buenos Aires, 20 (AE) - O presidente argentino, Carlos Menem, está apostando seu destino político na eleição de amanhã (21) para governador da Província de Catamarca. A eleição definirá a possibilidade de o presidente apresentar-se como candidato a sua segunda reeleição. Se Ramón Saadi, amigo de Menem e candidato ao governo da província pelo partido do governo, o Partido Justicialista (mais conhecido por peronista) vencer a eleição, será um trunfo a ser utilizado pelo presidente para anunciar oficialmente que pretende disputar um terceiro mandato.
Menem aposta que a hipotética vitória em Catamarca reuniria outra vez o peronismo a seu redor e proporcionaria a ele o apoio da opinião pública nacional. A movimentação pela reeleição está cada vez mais esvaziada e enfrenta adversários tanto na oposição quanto dentro do próprio partido peronista.
Menem foi eleito pela primeira vez em 1989, e reeleito em 1995. Sua segunda reeleição está proibida pela Constituição. No entanto, isso não foi um obstáculo para que os assessores de Menem tentassem uma forma de driblar a Carta. Eles esperam uma decisão favorável da Corte Suprema, aproveitando lacunas jurídicas.
Mas, no meio de caminho de Menem está o também peronista Eduardo Duhalde, governador da Província de Buenos Aires, que desde o início da década sonha em ocupar a presidência e controla 38% dos deputados do partido.
A luta para vencer a eleição está sendo chamada de "Batalha de Catamarca" e é considerada tão fundamental para a decisão do lançamento oficial da candidatura de Menem quanto as primárias de New Hampshire são importantes para as candidaturas presidenciais nos Estados Unidos.
Do lado peronista está Saadi, e do lado da Aliança Opositora - formada pela União Cívica Radical (UCR) e Frente para um País Solidário (Frepaso) -, Oscar Castillo. Ambos são caudilhos de dois clãs que disputam o poder nessa empobrecida província há varias décadas. Para conquistá-lo, não poupam esforços.
Menem esteve ao longo da semana várias vezes em Catamarca. Na sexta-feira, discursou em três eventos diferentes. É a primeira vez que um presidente vai à província para apoiar um candidato a governador.
A eleição alcançou um caráter nacional. O candidato presidencial da Aliança, Fernando De La Rúa, também foi a Catamarca durante a semana.
Se Saadi vencer, Menem imediatamente regressará a Catamarca amanhã para tomar para si os louros da vitória. Mas as pesquisas indicam que essa possibilidade é mínima: Ramón Saadi, o candidato do governo, tem 32,6% das intenções de voto, enquanto o candidato da oposição, Oscar Castillo, tem 45,3%.
Menem espera que seu carisma consiga causar uma virada na situação. Em Catamarca, Menem tem uma imagem pública aprovada por 60% da população, e 50% dos catamarquenhos querem que ele seja habilitado para a segunda reeleição.
O índice é surpreendente quando se leva em conta que, no restante do país, a rejeição à possibilidade de que Menem possa ser candidato à reeleição é de 75%. Se Menem fosse candidato à presidência, em Catamarca teria 41% dos votos, enquanto De La Rúa obteria 33% e Eduardo Duhalde ficaria com 8%.
No entanto, a possibilidade de uma reeleição de Menem está cada vez mais distante de concretizar-se. Tanto seus inimigos internos do partido como os da oposição convocaram para as próximas semanas diversos plebiscitos regionais para constatar se Menem tem apoio ou não para modificar a Constituição e poder apresentar-se como candidato nas eleições presidenciais de outubro. Os analistas consideram que nessas votações haverá uma avassaladora conclusão desfavorável à Menem.
Os plebiscitos são mais uma série de golpes dos diversos que Menem tem levado nas últimas semanas. Até poucos meses o presidente parecia ter um poder indiscutível sobre o partido. Mas o fanatismo de seu círculo interno de assessores, que insiste na reeleição passando por cima da Constituição, causou fissuras no peronismo.
Mesmo antigos menemistas começaram a emigrar para o lado de Duhalde. Mas, enquanto os "menemistas light" abandonam o presidente, permanece a adesão incondicional do círculo interno, o que valeu a seus integrantes a denominação de "ultramenemistas". Dentro desse grupo existe um círculo mais fundamentalista ainda: os "gurka-menemistas", em alusão aos guerreiros nepaleses cortadores de cabeças.
Nos últimos dias, um deles, o secretário-geral da presidência, Alberto Kohan, tentou estabelecer uma trégua com Duhalde. Kohan ofereceu ao governador o adiamento da convenção interna do peronismo. Do dia 9 de maio, poderia ser adiada para julho, poucos meses antes das eleições presidenciais, marcadas para outubro.
Isso possibilitaria a Menem fazer uma saída gradual de sua movimentação pela reeleição. A retirada seria "honrosa", sem humilhações, e Duhalde suspenderia a artilharia pesada que tem desferido contra Menem.
Mas os acontecimentos precipitaram-se: o secretário, que acompanha Menem há quase três décadas em suas andanças políticas, foi à residência de Duhalde no helicóptero presidencial para negociar a retirada de seu chefe.
Isso chegou aos ouvidos da imprensa, que tratou o tema como uma "rendição" de Menem. O presidente enfureceu-se e anunciou que não havia autorizado nenhum tipo de negociação. Dessa forma, as últimas possibilidades de uma saída honrosa começaram a desvanecer- se.
O acontecimento também enfraqueceu Kohan, braço direito de Menem e seu principal articulador, e gerarou abundantes rumores sobre sua renúncia. Kohan encarregou-se de afirmar que permaneceria em seu posto.
Os analistas são unânimes: a não ser que ocorra uma reviravolta política, Menem está a ponto de transformar-se num "lame duck" - "pato manco" - termo geralmente utilizado para definir os presidentes dos Estados Unidos que, ainda no governo, começam a perder o poder para o pré-candidato ou o candidato eleito.
As más notícias para Menem podem não parar com a provável derrota de Saadi e a confirmação do plebiscito na Província de Buenos Aires. A Corte Suprema, onde o presidente tem maioria de simpatizantes, está receosa de dar um parecer que lhe seja favorável.
Nesta segunda-feira, o tribunal poderia recusar os pedidos feitos pelos menemistas para que Menem seja habilitado para a reeleição.
Às portas de um aparentemente irreversível crepúsculo, cada vez mais Menem deixa de ser "El Jefe" e passa a ser somente "El Turco". Mas a substituição dessas denominações pode ser temporária: ainda faltam vários meses para que seja escrito o capítulo definitivo.

mockup