Memórias de Eichmann contestam "negacionismo" Do correspondente Gilles Lapouge
Memórias de Eichmann contestam "negacionismo" Do correspondente Gilles Lapouge9/Mar, 13:16 Paris, 09 (AE) - Adolf Eichmann, o organizador da "solução final" (o extermínio dos judeus pelos nazistas), foi enforcado há 40 anos, no dia 31 de maio de 1962, depois de julgado pelo Supremo Tribunal israelense . (Após a guerra, Eichmann se escondeu na Argentina, onde o Mossad israelense o capturou e levou para Israel). Durante os meses que precederam seu processo, no acampamento militar de Jameleh, perto de Haifa (ele era o único prisioneiro do acampamento) Eichmann escreveu suas "memórias" - 1.200 páginas de escrita fina, sob o título "G"tzen" (Falsos Deuses - designando os chefes nazistas). Os Arquivos israelenses acabam de divulgar agora esse texto. Não foi publicado por um editor. Trata-se de uma fotocópia que os Arquivos enviam gratuitamente às pessoas que o solicitam. O interesse desta imensa prestação de contas a respeito das atrocidades nazistas é evidente e é confirmado pelo atraso na divulgação do texto. Na época, o primeiro-ministro Ben Gurion proibiu sua publicação por 15 anos. Na sua opinião, nenhum editor, nem a família de Eichmann deveriam ganhar dinheiro com o Holocausto. Ben Gurion temia também que o texto de Eichmann deformasse a realidade, subestimasse a Shoah (o Holocausto). Depois de Ben Gurion, Menahem Begin seguiu a mesma linha, ainda mais porque na França, na Bélgica, na Inglaterra, etc. começaram a "tagarelar" os negativistas, ou seja, aqueles que se obstinam em negar o extermínio dos judeus. E o manuscrito ficou mais ou menos esquecido. Mas a posição de Israel era acrobática, porque o Estado judeu desejava que tudo o que se relacionasse com a Shoah fosse publicado. O filho de Eichmann, Dieter, tentou em vão recuperar o manuscrito. E, bem recentemente, Israel preferiu transmitir o manuscrito a um Instituto Histórico na Alemanha. Então, um novo salto: uma historiadora norte-americana, Deborah Lispstadt, escreveu contra o "negacionismo". E foi atacada por um célebre "negacionista" inglês, David Irving. Deborah pediu então autorização para consultar o texto a fim de replicar a Irving. E Israel autorizou os Arquivos a divulgar o documento. O que é mais curioso em todo este "imbróglio" é que, num primeiro momento - há 30 anos, 20 anos - Israel temia que o documento fornecesse "combustível" (se assim podemos dizer) aos "negacionistas". Hoje, acontece o contrário: é exatamente para "fechar o bico" de um "negacionista" inglês que se apela ao texto de Eichmann. Não tive em minhas mãos este grande manuscrito. Mas, as passagens publicadas aqui e ali são arrasadoras para a Alemanha e para Eichmann. Para os nazistas, porque o homem que mandou ao martírio milhões de judeus confirma que tinha um plano de genocídio, na sua expressão, "a maior e mais violenta dança da morte de todos os tempos". Eichmann afirma ter ouvido seu chefe, Reinhard Heydrich, falar de "solução final". As descrições fornecidas por Eichamnn a respeito de seu trabalho, da mecânica dos campos de concentração, correspondem exatamente aos testemunhos de pessoas que escaparam. Eichmann não sai engrandecido: certamente, ele retoma o argumento que desenvolveu no processo: era apenas um subalterno, um homem disciplinado e obediente, e isso justifica a tese que expôs então a filósofa Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal". Ora, da leitura destes extratos resulta claro que Eichmann, embora não tenha sido o idealizador da "solução final", foi o seu "mecânico". Cumpre não esquecer que ele era coronel da SS. Para os especialistas, se as Memórias são pródigas de detalhes preciosos para a história e o luto, em contrapartida, para descer ao fundo da alma lúgubre de Eichmann é preciso relembrar uma entrevista que ele deu na Argentina a um jornalista nazista da Holanda. Eichmann não se arrependeu de nada. Ou antes, arrependeu-se de uma coisa: de não ter feito o bastante para acabar com os judeus.





