Memorando de entendimento tem estatísticas desatualizadas
Brasília, 02 (AE) - O Memorando de Política Econômica do acordo brasileiro com o FMI divulgado hoje possui um conjunto de estatísticas e números já superados pela realidade. O resultado da balança comercial, que seria de déficit de US$ 1 bilhão para todo o ano de 99, já estava em US$ 1,452 bilhão negativos no final de novembro. A inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), projetada em 16% em 99 no documento, está estimada, na verdade, em 20%.
O governo manteve, na nova versão do acordo, a meta de chegar ao fim do ano com o saldo da dívida líquida do setor público consolidado em R$ 513,519 bilhões, mesmo sabendo que o número não será atingido. Até setembro, a dívida já estava em R$ 510,711 bilhões, num claro sinal de que a meta do ano será superada. A meta até setembro, também prevista no acordo, era de R$ 504,619 bilhões.
O estouro da meta da dívida líquida tem uma explicação simples, segundo explicou ontem o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes. O cálculo da dívida líquida contempla tanto a dívida interna quanto a dívida externa
que havia sido convertida para reais com um câmbio de R$ 1,75 por dólar. Por isso, a evolução da dívida externa, medida em reais, ficou muito acima do esperado, estourando a meta. Como a explicação para o estouro é simples, a equipe econômica e o FMI concordaram em manter a projeção tal como estava.
Na versão do acordo divulgada hoje, as conversões entre dólar e real foram todas feitas considerando um câmbio de R$ 1 98 para o ano 2000 todo. Ontem, o dólar estava em R$ 1,88. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, explicou que a cotação de R$ 1,98 foi tomada apenas como referência.
Bier insistiu, ainda, que a frustração na projeção da balança comercial não tem nenhuma implicação mais grave para o acordo. Segundo o secretário, esse número "é um dos 50 ou 60" indicadores que ajudam a compor o cenário da economia brasileira
sobre o qual as metas e critérios de desempenho são calculados.
Em meados do ano, o governo havia projetado que o Produto Interno Bruto (PIB) teria uma retração de 1% neste ano. Agora, reconhece que o desempenho está melhor do que o esperado, e deverá fechar com uma variação ligeiramente positiva. Ocorre que o governo havia se comprometido a chegar ao final do ano com um resultado primário do setor público consolidado (receitas menos despesas, exceto gastos com juros, dos governos federal, estaduais, municipais e empresas estatais) de R$ 30,185 bilhão, ou 3,1% do PIB. Como o PIB foi maior do que o esperado, o resultado terá de ser um pouco superior aos R$ 30,185 bilhões para chegar aos 3,1% do PIB.





