Membros de seita cercam prédios do governo na China
Pequim, 21 (AE-AP) - Milhares de membros da seita Falun Gong cercaram prédios do governo em pelo menos 30 cidades da China em protesto pela prisão, na segunda-feira, de líderes do grupo religioso. A polícia chinesa prendeu cerca de 2 mil manifestantes diante da sede do governo em Pequim, a maioria velhos e mulheres de meia idade que pertencem à seita, e os levou de ônibus a um estádio na periferia da capaital. Alguns dos detidos foram libertados horas depois. O governo calcula em cerca de 10 milhões a 70 milhões o número de seguidores da seita.
Centenas de policiais uniformizados e à paisana cercaram a Avenida da Paz Eterna que leva ao Zhongnanhai, a sede do governo. Eles frustraram uma tentativa dos membros da seita de repetir o grande protesto realizado em abril, do qual participaram 10 mil pessoas, no qual exigiam um reconhecimento oficial do grupo religioso. Essa primeira manifestação chocou a liderança chinesa e o Partido Comunista e o governo tentaram acabar com a influência da seita prendendo seus líderes.
Na sulista província de Guangdong, cerca de 10 mil membros da seita protestaram diante dos prédios do governo. As forças de segurança cercaram os edifícios governamentais em Guangzhou, mas nenhum incidente foi registrado. Em Xangai, centenas de pessoas desfilaram pacificamente pelo centro da cidade e em Shenzen, cerca de mil membros da seita foram colocados por policiais dentro de vários ônibus e levados para um destino desconhecidos.
Um número similar de manifestantes concentrou-se diante de edifícios governamentais na nortista cidade de Dalian. Pelo menos cinco pessoas foram detidas e duas ficaram feridas quando a polícia tentou dispersar a manifestação.
Também em Hong Kong, pelo menos 40 membros da Falun Gong realizaram um silencioso protesto diante da agência de notícias oficial da China para pedir ao governo de Pequim a libertação dos líderes da seita. Na terça-feira, cerca de 500 membros da seita manifestaram-se na cidade de Taiyaun, na nortista Província de Shaanxi, e o mesmo número de religiosos na cidade de Wifang, na Província de Shandong, no leste do país.
A Falun Gong é uma das principais seitas místicas que surgiram na China nos últimos anos para encher o vazio espiritual deixado pelo abandono progressivo do socialismo. Dirigida desde que foi fundada em 1992 por Li Hongzhi, que vive nos Estados Unidos, esta seita que reivindica 80 milhões de adeptos na China e 20 milhões no exterior, tem uma posição radical contra a ciência, a imoralidade e a depravação de costumes.
Mas, ao mesmo tempo, se impôs com suas promessas de curas milagrosas graças ao método "gigong", uma arte marcial chinesa que permite pôr em ação a energia interior com técnicas de respiração e meditação. Muito sincrética, a seita tem como base a noção budista da reencarnação e a hinduísta do karma, segundo a qual o destino do ser humano está determinado pela totalidade de suas ações passadas e de suas vidas anteriores.
Apesar de ser constantemente condenada pelas autoridades, que vêm nela o ressurgimento das superstições feudais que a China comunista tratou de erradicar há mais de 50 anos, a seita continua recrutando adeptos, em particular em Pequim, em todos os meios, desde intelectuais até pessoas modestas. A seita assegura que também tem membros do governo e do Partido Comunista entre seus adeptos.
As seitas religiosas têm sido historicamente uma ameaça para o poder político, chegando até mesmo a provocar a queda da última dinastia imperial. Nos meados do século passado e início deste, os Taiping (1850-1864) e os Boxers, dois movimentos político-místicos, só foram eliminados ao custo de milhões de mortes e de guerras civis.





