Quanto maior o número de apostas, maiores as chances de acerto. Este princípio norteou o tratamento contra a infertilidade por 25 anos. Implantam-se três ou quatro embriões na expectativa de que ao menos um deles vingue, isto é, se desenvolva a ponto de tornar-se um feto, um bebê, uma vida. O problema ocorre quando um único casal vence apostas demais numa única partida. Aí, podem vir gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos...
Por isso, o desafio dos médicos agora é fazer uma única aposta (implantar apenas um embrião). E vencer. Essa experimentação já vem sendo feita no Instituto Valeciano de Infertilidad (IVI), na Espanha, a clínica de reprodução assistida mais prestigiada no mundo. ''A grande dificuldade é escolher o melhor embrião, aquele com maior chance de gerar uma vida'', afirma o ginecologista Manuel Fernadez, diretor do IVI, que esteve em Belo Horizonte para participar do Serono Symposia Internacional. ''O organismo da mulher foi projetado para a gestação de um bebê por vez - uma gravidez múltipla, muito mais arriscada, é sempre um acidente.''
Gêmeos são mais propensos a nascer prematuros e ficar com sequelas psicomotoras. Enquanto os médicos espanhóis realizam implantes de um ou dois embriões por tentativa (a lei federal no país permite até três), para diminuir o risco de gestações múltiplas, os especialistas brasileiros ainda mantêm uma média de três ou quatro por vez, como explica o médico Selmo Geber, da Clínica Origen, de Belo Horizonte.
Há cerca de oito anos, os apresentadores William Bonner e Fátima Bernardes foram surpreendidos, após tratamento para engravidar, pela gestação de trigêmeos. Na época, a pergunta anedótica correu o País: e agora, quem vai apresentar o ''Jornal Nacional''? O índice de gestações múltiplas no tratamento de infertilidade varia de acordo com o nível tecnológico de cada país. ''No Brasil, o risco é de 20% de se gerarem gêmeos e de 3% de trigêmeos'', afirma Geber, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.
No IVI, por exemplo, o índice de trigêmeos é dez vezes menor: 0,3%. Mas até lá as apostas às vezes surpreendem. ''Uma vez, implantamos dois embriões numa paciente e ela gerou quatro filhos'', conta Fernandez. Isso ocorreu porque cada embrião, como numa gravidez normal, pode gerar gêmeos idênticos. Mas e se o casal quiser ter gêmeos? Pode-se tentar induzir isso, já que, quanto maior o número de embriões implantados, maior o risco (no caso, a probabilidade) de uma gestação múltipla. ''Mas ao implantar cinco embriões, por exemplo, há sempre a possibilidade, ainda que remota, de que os cinco vinguem'', alerta Geber. Haja mamadeira.

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